Tudo silencioso. Será que é hora de acordar? Não,
possivelmente não. Passei a mão do meu lado e Stev ainda dormia ali,
definitivamente não é hora de acordar. Virei-me para o outro lado e peguei no
sono novamente.
Antes que o despertador terminasse de soar, desliguei-o.
Steven já foi trabalhar, me levantei e cocei os olhos. Sorri
brevemente ao lembrar da noite passada, ele é meu namorado, mas quase nunca
está disponível por causa do trabalho. E quando ele vem dormir aqui em casa,
bem, ”aproveitamos”.
Fui me arrastando até o banheiro, fiz minhas necessidades e
fiquei parada olhando meu reflexo no espelho. Meu cabelo castanho escuro
parecia mais vivo, eu parecia mais corada, minha pele mais morena, no geral eu
ficara melhor com a visita inesperada de Stev. Ele é um homem perfeito, é
lindo, inteligente, tem um emprego ótimo, é carinhoso, e acima de tudo, me ama.
Amamos-nos, aliás.
Ele não mora aqui em Los Angeles, depois que seu pai morreu,
sua mãe ficou um pouco mais sensível. Ela precisa de mais carinho, segundo ele,
e morando aqui ele não conseguiria dá-lo. Então mora em Santa Mônica. Ele tem
um irmão, se chama Stefan, que está na fase da adolescência e parece que depois
desses anos ainda não superou a morte do pai, e meio que culpa a mãe. Meu sogro
morreu devido uma doença no fígado, ele bebia demais, minha sogra brigava com
ele por isso, e pela briga ele bebia mais ainda. Stev é
mais apegado à mãe, e
Stef era ao pai.
E eu, ah, eu não consigo falar de mim. Uma jovem de vinte e
seis anos, feliz, trabalha numa produtora, tem um namorado, mora sozinha, o pai
mora numa cidade pequena no Texas e a mãe em Orlando. Tenho uma irmã de quinze
anos e um irmão de vinte e três, Louise e Jimmy. Meu irmão mora aqui em L.A.
também, já minha irmã mora com minha mãe. Meus pais são separados.
Saí do transe do espelho e saí do banheiro, meu apartamento
é pequeno: dois quartos (um é a minha suíte), uma cozinha, dois banheiros, uma
sala. Pronto, acabou. É claro que no prédio que eu moro, tem uma piscina lá
embaixo, um bar, salão de festas e todas essas coisas. Com o meu salário, vamos
dizer que dá pra viver. Produzo clipes, ajudo no planejamento, no roteiro, na
execução, na edição, em tudo. Na maioria das vezes, junto com Cameron Duddy. E
isso dá um bom rendimento no geral. Conheço artistas, vejo os clipes antes,
isso tudo é bem legal.
Meu celular começou a tocar e eu fui correndo para pegá-lo
no criado mudo.
- Bom dia, anjo. –
Steven, me cumprimentou.
- Ah oi, amor. – Respondi.
- Dormiu bem? Tive que
sair bem de manhã pra chegar mais cedo, acabei de sair da reunião.
- Dormi, quer dizer, depois que acabamos dormi. – Ele riu,
eu sorri.
- Que bom, eu saí e
você dormia como uma anjinha, tão linda. – Ele sempre me elogia, acho que é
o que mais faz na vida. Dar elogios.
- Você é tão fofo que deveria ganhar um prêmio por isso,
sabia? Geralmente meu cabelo fica desgrenhado quando acordo, só depois ele
melhora. É gentileza sua. – Falei.
- Claro que não, você
é linda desde o momento que acorda até dormir de novo.
- Deu vontade de te apertar agora, venha cá. – Rimos. Ouvi
alguém chamar seu nome.
- Ah, linda, tenho que
ir. Meu chefe está me chamando, eu liguei pra falar que o Stefan vai ir aí pra
Los Angeles amanhã e perguntar se ele pode ficar aí na tua casa. Ele vai fazer
uma prova pra
faculdade daí, sabe, ele já está vendo isso porque ele está no
terceiro ano e ele quer ganhar uma
bolsa para 2015. – Stefan é mal-educado
com a mãe e o irmão, mas eu ele parece tratar normalmente.
Então não havia
problema.
- Claro que ele pode ficar aqui, sem problemas. Pode ir lá,
seu chefe te chama. Te ligo mais tarde, beijos. – Ele respondeu “beijos” e
desligamos. Penso se possa existir um relacionamento tão perfeito assim,
estamos namorando desde o final de outubro de 2012, e nunca brigamos. Acho que
apenas uma vez quando ele queria comida italiana e eu japonesa, discutimos e no
final comemos uma pizza. Sempre foi tudo perfeito, normal, simples.
Enquanto prendia o cabelo num coque, eu caminhava em direção
à cozinha. Quando cheguei, dei um breve grito.
- Ah, bom dia. – Essa é Lea, minha melhor amiga desde os
tempos da faculdade, ela mora no apartamento da frente. Mas não sai do meu.
- Bom dia, sem teto. – Respondi e ela riu.
- Não sou sem teto, eu sei que você ama acordar e ver uma
linda e loira mulher tomando o seu leite sensualmente.
- Nossa, está mesmo muito sensual você acabando com meu
cereal e meu leite, derrubando na roupa com maestria e tudo. – Ela riu.
- Cheguei faz uns quinze minutos, nem comi tanto. Acho que
vou nadar um pouco hoje, parece que vai fazer calor. – Ela não trabalha, o pai
é dono de uma empresa muito próspera e sustenta Lea aqui. De vez em quando ela
resolve procurar um emprego, fica nele durante algumas semanas, e depois sai
pelos mais variados motivos. Ela saiu do último porque ficou com o chefe e depois deu um pé na bunda dele, e
foi dispensada.
- Você acha tanta coisa… Olha lá fora, tá tudo nublado e
ventando. – Apontei para a janela e ela olhou – Vai chover hoje, certeza.
- Que porcaria, queria nadar. – Torceu o lábio – Chuva de
verão é totalmente detestável. Ouve, seu celular tá tocando.
Era verdade, eu nem havia percebido ele tocar no meu quarto.
Fui correndo até lá, peguei-o e depois voltei para a cozinha.
- Bom dia, Luana. – O número não tinha o nome registrado, e
não reconheci a voz.
- Bom dia, com quem falo?
- É a Sheila da produtora, o senhor Cameron me pediu para
avisar que vocês tem uma reunião às duas e quinze da tarde. A senhora irá
comparecer? – Essa tal Sheila ficava na recepção de manhã, e como o meu turno é
a tarde eu nem sei quem ela é direito.
- Claro, pode avisá-lo que estarei presente. – Ela fez um
“uhum”, nunca vi a Sheila, mas parece ter mais de quarenta anos.
- Tudo bem, Luana. Obrigada. – Desligou.
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