terça-feira, 25 de março de 2014

Prólogo


Tudo silencioso. Será que é hora de acordar? Não, possivelmente não. Passei a mão do meu lado e Stev ainda dormia ali, definitivamente não é hora de acordar. Virei-me para o outro lado e peguei no sono novamente.

Antes que o despertador terminasse de soar, desliguei-o.
Steven já foi trabalhar, me levantei e cocei os olhos. Sorri brevemente ao lembrar da noite passada, ele é meu namorado, mas quase nunca está disponível por causa do trabalho. E quando ele vem dormir aqui em casa, bem, ”aproveitamos”.

Fui me arrastando até o banheiro, fiz minhas necessidades e fiquei parada olhando meu reflexo no espelho. Meu cabelo castanho escuro parecia mais vivo, eu parecia mais corada, minha pele mais morena, no geral eu ficara melhor com a visita inesperada de Stev. Ele é um homem perfeito, é lindo, inteligente, tem um emprego ótimo, é carinhoso, e acima de tudo, me ama. Amamos-nos, aliás.

Ele não mora aqui em Los Angeles, depois que seu pai morreu, sua mãe ficou um pouco mais sensível. Ela precisa de mais carinho, segundo ele, e morando aqui ele não conseguiria dá-lo. Então mora em Santa Mônica. Ele tem um irmão, se chama Stefan, que está na fase da adolescência e parece que depois desses anos ainda não superou a morte do pai, e meio que culpa a mãe. Meu sogro morreu devido uma doença no fígado, ele bebia demais, minha sogra brigava com ele por isso, e pela briga ele bebia mais ainda. Stev é 
mais apegado à mãe, e Stef era ao pai.

E eu, ah, eu não consigo falar de mim. Uma jovem de vinte e seis anos, feliz, trabalha numa produtora, tem um namorado, mora sozinha, o pai mora numa cidade pequena no Texas e a mãe em Orlando. Tenho uma irmã de quinze anos e um irmão de vinte e três, Louise e Jimmy. Meu irmão mora aqui em L.A. também, já minha irmã mora com minha mãe. Meus pais são separados.

Saí do transe do espelho e saí do banheiro, meu apartamento é pequeno: dois quartos (um é a minha suíte), uma cozinha, dois banheiros, uma sala. Pronto, acabou. É claro que no prédio que eu moro, tem uma piscina lá embaixo, um bar, salão de festas e todas essas coisas. Com o meu salário, vamos dizer que dá pra viver. Produzo clipes, ajudo no planejamento, no roteiro, na execução, na edição, em tudo. Na maioria das vezes, junto com Cameron Duddy. E isso dá um bom rendimento no geral. Conheço artistas, vejo os clipes antes, isso tudo é bem legal.

Meu celular começou a tocar e eu fui correndo para pegá-lo no criado mudo.

- Bom dia, anjo. – Steven, me cumprimentou.

- Ah oi, amor. – Respondi.

- Dormiu bem? Tive que sair bem de manhã pra chegar mais cedo, acabei de sair da reunião.

- Dormi, quer dizer, depois que acabamos dormi. – Ele riu, eu sorri.

- Que bom, eu saí e você dormia como uma anjinha, tão linda. – Ele sempre me elogia, acho que é o que mais faz na vida. Dar elogios.

- Você é tão fofo que deveria ganhar um prêmio por isso, sabia? Geralmente meu cabelo fica desgrenhado quando acordo, só depois ele melhora. É gentileza sua. – Falei.

- Claro que não, você é linda desde o momento que acorda até dormir de novo.
- Deu vontade de te apertar agora, venha cá. – Rimos. Ouvi alguém chamar seu nome.

- Ah, linda, tenho que ir. Meu chefe está me chamando, eu liguei pra falar que o Stefan vai ir aí pra 
Los Angeles amanhã e perguntar se ele pode ficar aí na tua casa. Ele vai fazer uma prova pra 
faculdade daí, sabe, ele já está vendo isso porque ele está no terceiro ano e ele quer ganhar uma 
bolsa para 2015. – Stefan é mal-educado com a mãe e o irmão, mas eu ele parece tratar normalmente. 

Então não havia problema.

- Claro que ele pode ficar aqui, sem problemas. Pode ir lá, seu chefe te chama. Te ligo mais tarde, beijos. – Ele respondeu “beijos” e desligamos. Penso se possa existir um relacionamento tão perfeito assim, estamos namorando desde o final de outubro de 2012, e nunca brigamos. Acho que apenas uma vez quando ele queria comida italiana e eu japonesa, discutimos e no final comemos uma pizza. Sempre foi tudo perfeito, normal, simples.

Enquanto prendia o cabelo num coque, eu caminhava em direção à cozinha. Quando cheguei, dei um breve grito.

- Ah, bom dia. – Essa é Lea, minha melhor amiga desde os tempos da faculdade, ela mora no apartamento da frente. Mas não sai do meu.

- Bom dia, sem teto. – Respondi e ela riu.

- Não sou sem teto, eu sei que você ama acordar e ver uma linda e loira mulher tomando o seu leite sensualmente.

- Nossa, está mesmo muito sensual você acabando com meu cereal e meu leite, derrubando na roupa com maestria e tudo. – Ela riu.

- Cheguei faz uns quinze minutos, nem comi tanto. Acho que vou nadar um pouco hoje, parece que vai fazer calor. – Ela não trabalha, o pai é dono de uma empresa muito próspera e sustenta Lea aqui. De vez em quando ela resolve procurar um emprego, fica nele durante algumas semanas, e depois sai pelos mais variados motivos. Ela saiu do último porque ficou com  o chefe e depois deu um pé na bunda dele, e foi dispensada.

- Você acha tanta coisa… Olha lá fora, tá tudo nublado e ventando. – Apontei para a janela e ela olhou – Vai chover hoje, certeza.

- Que porcaria, queria nadar. – Torceu o lábio – Chuva de verão é totalmente detestável. Ouve, seu celular tá tocando.

Era verdade, eu nem havia percebido ele tocar no meu quarto. Fui correndo até lá, peguei-o e depois voltei para a cozinha.

- Bom dia, Luana. – O número não tinha o nome registrado, e não reconheci a voz.

- Bom dia, com quem falo?

- É a Sheila da produtora, o senhor Cameron me pediu para avisar que vocês tem uma reunião às duas e quinze da tarde. A senhora irá comparecer? – Essa tal Sheila ficava na recepção de manhã, e como o meu turno é a tarde eu nem sei quem ela é direito.

- Claro, pode avisá-lo que estarei presente. – Ela fez um “uhum”, nunca vi a Sheila, mas parece ter mais de quarenta anos.

- Tudo bem, Luana. Obrigada. – Desligou.

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