quinta-feira, 27 de março de 2014

Capítulo Quatro

- Vai, vai, vai, vai, vai, vai. Um... Dois... Três. – Eles se preparavam para cantar, agora Bruno estava presente e Cameron também. Mulheres do tipo da Judith, que veio pegar Bruno aquela hora, já tinham ido embora. Sobrou algumas mais decentes, amigas, e alguns caras. Haviam casais em volta da piscina e nos sofás, então era melhor ficar sentada na cadeira, inclusa na roda. Eles me perguntaram qual é a música que eu mais gosto do Bruno, e eu disse que eu estava um tanto viciada em Treasure, e eles se preparavam para cantar. Mas devido a bebida, pela quarta vez eles chegaram no "três" e ao invés de cantar, gargalharam.

- Não, não, agora é sério. Vamos agradar nossa bela donzela. – Ih, virei donzela –, e vamos cantar em coro, como nos velhos tempos. – Um deles falou, o maior deles. Parecia um ogro, não era bonito, mas era grande.

- Cala a boca, Kam. É você quem tá desafinando. – Um baixinho falou. Coitado, já perdeu um membro, pensei após analisar a diferença enorme de tamanhos. O tal Kam só olhou para o baixinho com uma cara feia – coisa que não era dificuldade de se fazer – e virou a cara. Phil estava rindo de algo, totalmente bêbado.

- E lá vamos nós. – Alguém disse no meio.

- Eu já assisti esse episódio no pica-pau, cara – riu –, é muito engraçado. É aquele que a bruxa fala lá vamos nós porque perdeu a vassoura, não é? – Um cara com lábios inferiores avantajados demais e olhos grandes começou a rir, e perguntar. Só ouviram-se explodir gargalhadas, eu também ri bastante. – Ué, quê que foi? – Ele ainda perguntou, e depois riu.

- Treasure, that is what you are. Honey, you're my golden star. And if you can make my wish come true, if you let me treasure you... If you let me treasure oh oh ooooooohUma voz doce começou a cantar no meio das risadas, e foi cantando cada vez mais alto. A parte dos "OHs", todos cantaram em coro.

A voz era Bruno, e depois com todos juntos, ficou perfeito. Percebi que alguém gravava na outra ponta da roda, mas não era um dos cantores – You are my treasure, you are my treasure, you are my treasure, yeah you you you you are. – Continuaram todos juntos, foi a melhor parte da noite.

Com o tempo, o resto das pessoas se foram e sobraram só os integrantes da banda e algumas mulheres que eram aparentemente "amigas coloridas" ou namoradas deles. Já era quase meia-noite. Steven me mandara uma mensagem perguntando se estava tudo bem e que ele não poderia vir, mas no final da semana viria. Eu respondi que estava tudo bem, e que fiquei feliz por ele poder vir ao menos no fim de semana.

- Hey, vamos fazer um jogo? – James, perguntou. Sim, agora eu sei o nome de todos.

- Que jogo? – Perguntei, não querendo me intrometer, mas logo alguém perguntaria.

- Hum... Não sei. – Ele respondeu. Os rapazes tinham parado de beber um pouco, Bruno disse que a casa dele não é bar pra eles encherem totalmente a cara, só parcialmente. Então para não ficarem bêbados demais, eles pararam de beber álcool e bebiam apenas guaraná ou coca.

“É melhor você vir para casa, parece que o Stev está com febre.”

- Tenho que ir, rapazes. – Falei e eles olharam para mim. Cameron também se levantou, em sinal que também estava indo. – Meu cunhado está mal, tenho que ir mesmo.

- Não acredito, agora que íamos começar com um jogo? – Kam perguntou e cruzou os braços, fingindo estar emburrado. Dwayne deu-lhe um tapa na cabeça. Dei tchau a todos e fui andando até o portão, Phil – a propósito – me deu um abraço extremamente grande e apertado e antes de chegar até lá, Bruno correu até mim.

- Amanhã, que horas será a reunião? Eu já tenho umas ideias… - Ele pareceu entusiasmado.

- O horário que for melhor pra você, por mim qualquer um, mas preciso estar avisada.

- Hum... Às três? Pode ser? – Pensei por um momento, e às três estava bem.

- Pode, pode sim. Muito obrigada pela festa, senhor Bruno Mars. – Eu disse sorrindo, pois ele já havia dito para eu chamá-lo de Bruno.

- Não há de quê, senhorita Luna Sanders. – Deu um sorriso desafiador, eu apenas dei meia volta e saí.

Fui caminhando até meu carro pensando no que Stefan tinha, é claro que uma dor de cabeça ou outra é normal, mas minha mãe sempre diz que quando há febre há algo a mais. Dirigi o mais rápido que pude até em casa, estacionei o carro e peguei o elevador. Havia uma senhora que eu nunca havia visto, com umas sacolas estranhas, aliás, ela era estranha. Balancei a cabeça ao sair, para espantar os pensamentos sobre a senhora.

- Stefan, o que aconteceu? – Falei quando vi ele branco, mais branco que farinha. Me subiu um pânico pelo corpo todo. Lea saiu da cozinha com uma xícara, provavelmente chá, pensei.

- Eu falei que ele estava com febre só pra não te apavorar, ele também está com febre, mas parece um pouco pior. – Ela falou entregando a xícara. – Fiz um chá verde. Sua mãe disse que ajuda.

- Minha mãe? Ela ligou? – Perguntei.

- Não, ela disse isso faz tempo. – Explicou. – Ah, Stef... – Só agora eu percebi que ele estava com um balde, e depositando o que comeu na última semana dentro dele.

- Vamos pro hospital, agora. – Falei.

- Não, pode deixar que eu vou. Amanhã você tem reunião com o Bruno Mars e eu sei que um monte de coisa, deixa que eu levo ele. Pode dormir. – Lea falou, enquanto Stefan esbranquiçava mais, vomitando.

- Você sabe que eu não vou conseguir dormir com ele assim. – Apontei para Stefan. – Deixa que eu vou, vai dormir. – Ela negou com a cabeça.

- Vamos todos então. Vai se trocar enquanto eu tiro seu carro da garagem, depois leva ele. – Ela pegou as chaves do carro e saiu.

Falei para Stefan que já voltava e ele assentiu. Tirei meu vestido e coloquei uma calça, blusa, sapatilha e jaqueta. Voltei para sala e Stefan estava recostado no sofá, com os olhos fechados.

- Vamos? – Ele abriu os olhos.

- Claro. – Falou baixo, quase num cochicho.

Saímos em direção ao elevador, no momento em que estávamos descendo ele segurou no meu braço. Parecia nauseante aquilo para ele. Descemos e o carro estava lá na frente, entramos e Lea dirigiu direto para o hospital. Estava muito frio lá fora, uma brisa gelada balançou meus cabelos e fez Stefan bater os dentes, mesmo com uma jaqueta. Saber dirigir ela sabe, só não dirige. Fomos ao pronto socorro, que estava mais próximo que o hospital, e me sentei nas cadeiras de espera enquanto Lea conversava com a moça na recepção.

- Tem um médico de plantão, vamos vê-lo. – Ela avisou e eu assenti devagar, olhando Stefan.

Enquanto ele era levado para o consultório do plantonista, liguei para Steven e avisei o que estava acontecendo. Ele disse que já estava vindo, que apareceria de surpresa no meio da noite e por isso já tinha passado da metade do caminho. Disse que viria direto ao hospital para que eu possa ir descansar e ter ânimo para amanhã. Acho que nem com uma caixa de energético tenho ânimo pra amanhã, pensei.

Uns vinte minutos depois, Steven chegou. Eu já tinha cochilado na poltrona da sala de espera, e ele me acordou. Mostrei onde Stefan estava e ele foi até lá. Logo depois Lea voltou dizendo que Stev ficaria a partir de agora, Stefan passaria a noite tomando soro por estar desidratado demais. Ele pareceu mesmo desidratado demais, branco demais, vomitando tudo o que o preenchia.

 Fomos para casa e eu não consegui nem ver nada, ao chegar, deitei na cama e apaguei.

Eu definitivamente não estou disposta a ir trabalhar hoje. Pela janela entrava uma brisa fria, gélida. Me levantei e fui até o banheiro para escovar os dentes, depois de escovados, saí do quarto e fui para a cozinha. Tudo silencioso. Lea ainda deve estar dormindo, quando chegamos ontem já eram mais de duas horas da manhã. Olhei no relógio de parede e vi que eram nove e meia da manhã. De quinta eu entro às dez, então quer dizer que eu estou muito atrasada.

- Ah, que merda. – Xinguei enquanto corria para o banheiro.

Tomei um dos banhos mais rápidos da minha vida. Coloquei uma calça jeans, camiseta, jaqueta e sneakers. Corri para a cozinha e comi uma banana com aveia e mel, taquei tudo dentro de uma tigela e mandei pra dentro. Escovei os dentes novamente e saí.

No elevador estavam uma menininha e a mãe, o eletricista do prédio e um outro homem que eu acho que mora no terceiro andar também. A menininha tinha mais ou menos três anos, ou dois, então o elevador estava tomado por cheiro de criança. Tão bom. Era estranho como ficou tão frio de uma vez em Los Angeles, na semana passada o clima estava ameno, normal, mas nessa uma massa de ar frio veio com tudo. Olhei no relógio e eu tinha quinze minutos pra chegar na produtora, coisa que eu só conseguiria se voasse. E assim eu fiz. Voei.


- Você acha que ele vem pra casa hoje? – Perguntei.

- Ah sim, claro. E aí, acha que consegue voltar um pouco mais cedo? – Stev perguntou.

- Meu trabalho está quase pronto, tenho uma reunião daqui vinte minutos, e depois que acabar eu vou pra
casa. Sua mãe veio também?

- Não, ela estava enrolada com os trabalhos da comunidade e disse que sabia que eu cuidaria bem do Stef, então ela não viria. Sabe, ela nem pareceu tão preocupada quando eu liguei pra ela hoje mais cedo.

- Nossa, não? – Não se preocupar com o próprio filho já é demais, pode dar uma preferência para o outro até, mas quando um está no hospital deve-se mais amor. Pelo amor de Deus.

- Não, não pareceu. Mas você sabe, ela devia estar cansada e não conseguiu demonstrar que estava tão preocupada assim.

- Ah, claro…

- Amor, tenho que desligar porque o médico do Stef tá vindo, até mais tarde. – Ele avisou.

- Até mais.

- Te amo. – Ele desligou. E em seguida eu também.

Stefan está melhor, mas parece que pegou uma virose. Com esse tempo e o vento que tomei no ombro descoberto ontem, duvido muito que eu mesma não pegue uma gripe. 2h43, meu celular avisava. As reuniões são na sala de reuniões, ao lado da sala do Cameron. Eu estou morrendo de fome, pois não almoçara hoje. Tentei terminar tudo antes que desse a hora da reunião com o Mars, e consegui.

Fechei a última janela do computador e salvei o clipe. É de um grupo novo, Little Mix. A reunião com elas será amanhã, pra eu mostrar a elas o resultado. Têm uma música legal e tal, acho que não escolheram mal a carreira. Existem alguns cantores, que ficariam melhor como atendentes do Mc Donald’s.

- Ei, gata, o Bruno Mars já chegou. – Mark entrou falando. Somos amigos desde que eu comecei a estagiar aqui, mais de um ano. Ele não tem namorada, mas vive fazendo “limpas” nas baladas.

- Mas já? Faltam alguns minutos ainda, mas tudo bem. – Peguei o notebook e alguns papéis.

- Vou nessa reunião também, Cameron me mandou ir porque ele não confia muito no Bruno. – no Bruno?
Hã? – Vou ficar lá só observando e se precisar de alguma coisa, estarei lá.

- Bruno é o quê? Um delinquente? – Perguntei e ele riu.

- Acho que é pelo mesmo fator que você não me deixa muito tempo com a Lea. – Eu ri. Eu realmente não deixo ele sozinho com a Lea num ambiente fechado, ela acha ele lindo, e ele também, então nem sei o que pode dar. É claro que é brincadeira, mas sempre que ele vai lá em casa, os dois não ficam no mesmo cômodo sozinhos.

- Nesse caso, ele é um cara perigoso pelos seus tributos atrativos? – Perguntei e ele riu.

- Exatamente. – Ambos riram e saímos.

Fomos os dois para a sala de reuniões, mas Bruno não estava lá. Só Phil.

- Oi, sou o Mark. – Mark se apresentou.

- Ah, oi, Philip Lawrence. Mas pode me chamar de Phil. – Ele deu aquele sorriso simpático e singular, um sorriso “Philístico”.

- Oi, Phil. – Ele me abraçou brevemente.

- Oi, Luna. – Falou enquanto nos distanciávamos, me sentei ao seu lado, e Mark do meu outro lado.

- Ué, e cadê o Bruno? – Mark.

- Ah, ele. Ele… Ah sim, ele. Ai ai. – Phil riu – É uma história muito engraçada, vocês não vão nem acreditar
sabe… - Philip Lawrence estar-nos-ia enrolando?

- E cadê ele? – Eu perguntei.

- Ele? Ai, ele. – Phil desfaleceu os ombros e entortou os lábios.

- Aham, ele. – Concordei e Phil sorriu pouco à vontade. Onde será que estaria o Bruno?


terça-feira, 25 de março de 2014

Capítulo Três

“Luna, eu já cheguei. Peguei um taxi até a sua casa, você vai demorar muito?”

Era o que a mensagem do Stefan, eu estava abarrotada de trabalho. De uma hora para outra alguns clipes chegaram para a edição, está tudo bagunçado por aqui. Já são quase quatro horas e acho que hoje só vou embora às seis.

“Stef, pode subir que hoje a mulher que limpa a casa, Jude, está aí. Daqui um pouco mais de uma hora eu chego, se quiser eu peço para Lea ir te fazer companhia, vocês se dão bem, né? Enfim, fique à vontade.”
Mais cedo, um cantorzinho que é modinha chegou aqui fazendo a maior bagunça porque não gostou de como ficou o clipe, e mesmo assim foi lançado. Tivemos que explicar que não somos nós quem lançamos, então ele deveria ter ido ficar bravo com a produção dele, não conosco. Mas ele não entendeu, possivelmente a fama tirou alguns neurônios, e falou que iria nos processar. Quem fez o clipe foi a Penny, só tenho dó dela.

Fiquei terminando todas as coisas que chegaram de uma hora para a outra, e incrivelmente saí de lá antes das seis horas. Antes de ir para casa, passei no mercado e comprei algumas coisas para o jantar, e mais algumas coisas que estava precisando. Cheguei em casa e já eram seis horas.

- Ah, oi gente. – Falei após fechar a porta. Stefan e Lea pareciam desorientados sentados lado a lado no sofá. Ela arrumando o cabelo e ele a blusa.

- Hum… oi. – Ele falou sorrindo e Lea se levantou e foi em direção à cozinha. Eu a segui e coloquei as compras na mesa.

- Não me diga que…

- Ah, ele já tem dezessete anos. Já está grandinho, não é igual como nos vimos na última vez. Ele só tinha dezesseis. – Ela falou na maior cara-de-pau. Eu ri.

- Não acredito nisso. Mas okay, e aí, o que vocês fizeram no meu sofá? – Nunca se sabe o que essa louca pode fazer. Ela sorriu.

- Calma, calma, não fizemos nada disso o que você está pensando. E olha que o carinha tem pegada… Só nos beijamos. – Disse sorrindo – Se ele tiver puxado ao irmão, sorte a sua. – Completou e eu ri.

- Você não tem vergonha, mesmo né? – Ela riu – Vai jantar aqui? – Perguntei enquanto guardava as compras, ela veio me ajudar.

- Não tenho nada melhor pra fazer, então possivelmente.

Eu não tenho muito jeito na cozinha, mas me viro. Hoje vou fazer macarronada com almôndegas, não é uma coisa difícil e também não demora tanto, então era o mais indicado.

- Quer ajuda, Luna? - Stefan apareceu na cozinha.

- Hã? Não, obrigado. Pensando bem, você pode lavar a alface? - Ele assentiu e eu entreguei o pacote de alface.

Coloquei o macarrão no fogo enquanto Lea tagarelava sentada na mesa. De vez em quando Stefan falava algo engraçado que nos fazia gargalhar, Lea como sempre uma palhaça também, então estávamos só risadas. O jantar ficou ótimo, modéstia a parte, e a salada do Stefan também. Depois dele, eles lavaram e guardaram a louça devido o trabalho todo que já tive.

- Eu vou subir, tenho que pesquisar umas coisas pro clipe do Bruno Mars, e fazer mais alguns ajustes que dá pra fazer aqui em casa. Alguém tem algo a dizer? - Perguntei.

- Vou dormir no quarto de hóspedes, certo? Lea já me mostrou onde fica. - Ele sorriu de canto para ela, que subiu os cantos da boca num sorriso safado.

- Aham, vai. E por favor se comportem, tá? Não vou comentar com seu irmão, mas não quero ser madrinha de bebês tão cedo. - Falei e ele riu.

- Você não vai ser madrinha de ninguém porque eu tô indo pra minha casa, tenho que arrumá-la porque essa semana a empregada não vem. Nos vemos amanhã? - A pergunta não foi direcionada, mas pareceu ser para Stefan.

- Claro. Até amanhã. - Ela deu um beijo no canto de sua boca e acenou pra mim. Acenei de volta e só ouvi a porta batendo.

- Luna, você tá fazendo o clipe do Bruno Mars? - Ele perguntou enquanto eu pegava um copo d'água.

- Aham, estou. Por quê?

- Não, nada. É que, você sabe, o cara é maneiro e tal. - Eu resmunguei algo como "sei" ou "hum" e ele foi para seu quarto.

Fui para o meu também, já que ele nem me deu boa noite não vou fazer questão. Stefan é reservado, então deixa ele. Me sentei na cama e peguei o notebook, liguei o wi-fi, porque no prédio tem wi-fi, e fui para o Google.

Pesquisei sobre "Bruno Mars" primeiramente. Li algumas coisas sobre a carreira e vi seus clipes anteriores, na maioria deles eu ainda não trabalhava com o Cameron. E também nem tinha cargo suficiente para dirigir algo, eu era uma mera "ajudante". Acho que o que Cameron está fazendo, isso de me deixar praticamente no comando do próximo clipe, é como uma prova de confiança. É por isso que eu não posso falhar. Todo mundo da produtora sabe que ele tem uma amizade com o Bruno, e o admira muito, e pelo visto isso é mútuo. Se Bruno se decepcionasse, a culpa seria minha, e Cam não gostaria nada disso.

Eu estou animada, pode-se dizer. Eu geralmente trabalho com artistas "pequenos", aqueles que ainda não fazem ou fizeram tanto sucesso. Eu já conhecia o Bruno, quem não conhece o Bruno Mars? Mas parece que há um entusiasmo maior agora. Ele é famoso, estourou com Just The Way You Are, também com muitos outros. Alguns eu estava na faculdade, outros eu já estava trabalhando. Mas comecei realmente a "tomar o controle" das coisas da produtora no fim do ano passado, que foi quando fui promovida de ajudante para diretora de arte. Não me gabando, mas depois de mim só existem mais duas pessoas que podem mandar naquilo tudo. Que é o Cameron e o Mark, que por sinal é um ótimo amigo.

Coloquei uma playlist no computador com músicas do Mars, em algumas me surpreendi com o romantismo e outras com a safadeza. É claro que Bruno não é feio, é bacana, tem um sorriso impressionante e cabelos definitivamente charmosos. Mas é claro que eu não estou interessada nele, além de eu ter namorado, a última coisa que quero fazer no mundo é misturar trabalho com relacionamentos.

Pesquisei algumas atrizes latinas para o clipe, mas nenhuma parecia adequada. Além de que tudo tem que partir do gosto do Bruno, ele é quem sabe de como ele quer o clipe, o elenco, o espaço, tudo. Pensei em pegar seu número, eu precisava falar com ele sobre uma ideia que estava me fazendo cócegas por dentro. Mas isso poderia esperar.

Pesquisei as boates de Strip de Los Angeles e eram muitas, realmente todas distintas umas das outras. Talvez fosse melhor esperar pelo Bruno. É isso. Vou falar com ele na festa, pra levar algumas opções de tudo e minhas ideias organizadas. Eu estava pensando quando uma melodia me desconcentrou, era tipo "you are my treasure, you are my treasure, yeah you you you, you are". Eu sorri e, confesso, dei uma leve dançadinha. Fui dançando até o banheiro para escovar os dentes, escovei os dentes me remexendo, e fui desligar aquela música para poder dormir.

Melodia colante. É como eu chamo essa música. Treasure.

***

- Stef, você vai, né? Não me diga que eu vou ter que ficar sozinha lá. - Perguntei para ele, que estava deitado no sofá.

- Luna, tô morrendo de dor de cabeça. Meu irmão não falou que viria? – Ele já tinha reclamado da cabeça ontem, e mesmo com remédios ela não havia passado. Steven falou que se viesse, chegaria aqui lá pelas onze da noite. Pedi para ele vir, e ele disse que viria.

- Falou, mas ele só vai chegar onze horas ou mais. Lea achou alguma coisa com o pai, que nunca liga pra ela e resolveu aparecer, então o que me resta vai ser ir sozinha. – Me sentei no sofá com as mãos no rosto, desanimada.

- Se colocar as mãos no rosto, vai desmanchar a maquiagem. – Disse ele num tom terno – Você sabe que eu iria, se não fosse essa dor de cabeça medonha que estou, eu iria com você. Você está linda, vá e se divirta um pouco. – Ele sorriu e eu percebi que ele estava falando a verdade, eu não poderia ficar enfurnada dentro de casa só porque eu não teria companhia no trajeto até a festa. Lá provavelmente vai ter alguém, não é possível que eu fique totalmente sozinha.

- Ah, obrigada, Stef. – Eu sorri e ele me surpreendeu com um abraço, que eu retribuí sorrindo. Acho que esse menino está carente por causa da mãe. Eu não digo isso a ninguém, e nem costumo ficar pensando, mas a minha sogra sempre deu preferência ao Steven. Isso é evidente. Desde que começamos a namorar, e pelo visto desde sempre. Com a rejeição parcial da mãe, só lhe restou o pai, e depois que ele se foi, bem, o menino ficou sem chão. Eu e Stev estávamos namorando não fazia nenhum mês quando isso aconteceu, e Stefan chorou mais que qualquer pessoa de 16 anos que eu já vi chorar.

O vento lá fora estava congelante, uma espécie de neblina tomava o chão. Quando saí do elevador, passei pela recepção do prédio, e cheguei em direção à porta o vento soprou jogando meus cachos que estavam soltos sobre os ombros para trás. Eu estava com um vestido de um ombro só, o outro era coberto por uma manga comprida. E curto. Meus sapatos de salto alto que uso só de vez em quando, e quando não estão sendo utilizados pela minha vizinha/melhor amiga.

 A atmosfera estava estranha, parece meio mágico – pensei quando vi os grãos úmidos da neblina brilharem com as lanternas do carro iluminando-as.

Ontem alguém ligou para a produtora de manhã e me deixou o recado com o endereço de Bruno, explicando tudo. A casa dele nem é tão longe da minha, menos de vinte minutos e eu já estava em frente daquele palácio. Se eu achava que já tinha visto casas grandes, essa me surpreendeu. Estacionei o carro atrás de um carro antigo, como aqueles das figurinhas vintages que se veem por aí. Peguei minha bolsa de mão e saí do carro. Parecia que ali estava ainda mais gélido.

Fui caminhando pela calçada cheia de ladrilhos de pedra que brilhavam sob a luz da lua. E que lua, pensei. Ela estava linda hoje, digna de uma foto, cheia como um prato de sopa. Os portões cinza-escuro da casa davam um ar de privacidade exagerada, mas um deles estava aberto. E quanto mais fui me aproximando, pude perceber que alguém estava ali. Caminhei com cuidado para o meu salto-agulha não se enfurnar dentro de uma junta de duas pedras, e eu não passar um mico no meio da rua e na frente da casa do Bruno Mars. Mas felizmente, eu cheguei otimamente bem até o portão.

O cara de óculos grandes e sorriso simpático me esperava ali.

- Oi, Luna. – Me cumprimentou com um beijo no rosto.

- Oi, Philip. – Suspirei discretamente aliviada por me lembrar de seu nome.

- Phil, por favor. – Sorriu – Vem, entra. – Colocou sua mão direita no meu ombro esquerdo, que estava gelado por ser o ombro descoberto.

Passamos por uma garagem iluminada pela luz branca no teto, depois saímos ao ar livre num jardim enorme. A alguns metros a frente estava uma piscina, haviam plantas penduradas nas paredes e muita, mas muita gente.

- Tanta gente assim? Ele não disse que era alguma coisa menor, só pra comemorar o início da produção do clipe? – Perguntei baixo.

- Tanta? Luna, você não deve estar acostumada com festas de famosos. Aqui está realmente pequeno, não tem nada comparado à uma festa grande mesmo. Quando Bruno quer fazer festa grande, metade de Los Angeles cabe dentro disso aqui. – Ele riu, eu sorri.

Fomos caminhando até algumas cadeiras que haviam na área coberta por ali, na parede da área havia uma porta de vidro que provavelmente é a parede do meu quarto, só que de vidro. De onde eu estava sentada, dava para ver um jogo de cozinha totalmente branco e em algumas partes, mármore branco. Eu nunca havia visto mármore branco. Na mesa de centro, estavam algumas lembrancinhas do Havaí, como aquelas que compramos nas viagens dos caras que ficam vendendo em calçadas, os camelôs. 

Mal percebi e Bruno estava ao meu lado, com dois copos de whisky na mão.

- Havaí. Já foi lá? – Olhei pra ele com os olhos arregalados em parte pelo susto, ele sorriu.

- Hã? – Isso, pareça mais ainda uma retardada – Ah, não. Nunca fui. Dizem que lá é lindo. – Ele assentiu e me ofereceu o outro copo em sua mão, eu aceitei.

- E é mesmo... Aliás, já viu o Ryan hoje? Ele estava te procurando. Você trouxe sua amiga?


- Não, para as duas perguntas. Minha amiga foi jantar com o pai que não via a muito tempo, e meu cunhado que disse que viria comigo, estava com uma dor de cabeça horrível e não deu pra ele vir. – Ele coçou a cabeça.

- Cunhado?

- É, o irmão do meu namorado... – Gesticulei com as mãos, girando-as no ar.

- Você tem namorado? – Perguntou olhando as próprias mãos.

- É, tenho. E a propósito, eu queria falar com você sobre a reunião de amanhã. – Comecei, eu tentaria falar pra ele minhas ideias.

- Hum, pode falar.

- Sabe, é que eu estava pensando que...

- Bruno, amorzinho, a bebida acabou naquela garrafa que você nos deu. Onde tem mais? Venha buscar. – Uma moça loira, alta, com pouca roupa e sorriso indecente o abraçou por trás.

- Judith, eu estava conversando com a Luana, mas tudo bem. Vamos. – Se desvencilhou dela – Vou avisar ao Ryan que você está aqui, pode deixar. – Disse isso e saiu sendo arrastado pela Judith.

Alguns minutos depois, Ryan chegou.

- Oi. – Disse sentando-se ao meu lado.

- Oi, Ryan.

- Quer beber alguma coisa? Comer alguma coisa? Dar uma volta pela casa do Bruno? – Ele pareceu um garçom, me segurei para não sorrir – Acho que daqui a pouco o Cam chega, ele disse que daqui da festa já vai viajar. Sabe, com a filha. – Explicou e eu assenti.

- Comer algo não seria má ideia. – Disse e ele sorriu.

- Então vamos, ali no balcão de dentro tem uma tábua de frios. – Adentramos na cozinha enorme e cheia de mármore e madeira brancos. Ele me ofereceu uma tábua com queijos estrangeiros, alguns tipos de peito de peru diferentes e bacon. Achei estranho ter bacon numa tábua de frios, mas não é meu papel achar nada estranho.

Foi quando nos encostamos no balcão alto e duro de pedra, foi que pude observar sua roupa e tudo, e aparentemente ele também. Ele estava com uma calça jeans larga, e tênis All-Star nos pés. E com uma regata um tanto quanto ousada, que continha os dizeres "SEX, DRUGS AND RAP". E o cabelo em trancinhas, foi o que achei mais exótico. Mas gostei.

- Você está linda. – Ele disse sorrindo.

- Ah, obrigado. Você também não está nada mal. – Sorrimos novamente e ficou um clima desconfortável.


Depois de um tempo, fomos para fora. Havia uma rodinha em que só haviam homens, todos juntos, e cantavam. Cantavam alguma música antiga, Elvis talvez, ou então Beatles, não sei. Só cantavam. Pareciam um coral de igreja que se via em filmes, de vez em quando um ou outro desafinava devido a bebida. Mas logo voltavam a cantar como anjos numa capela.

- Rapazes, temos uma dama aqui. Se comportem. – Ryan disse e eles riram.

- Mas quem é a bela donzela? – Um deles perguntou.

- Luna Sanders. A bela donzela que comanda tudo ao lado do Duddy e é a bela donzela quem vai co-produzir o clipe de Gorilla, junto com ele e Bruno. A donzela que manja das edições enquanto tudo o que vocês fazem é cantar e beber. – Houve um coro de "uuuuuuuuh", como se isso fosse uma tirada para o cara que perguntou.


- Obrigada pela apresentação, Ryan. – Disse um pouco mais baixo, não aos quatro ventos, como o índio presente ao meu lado. Eles todos abriram um sorriso pra mim, ao mesmo tempo, depois se olharam e caíram na risada. Foi inevitável não rir.


Capítulo Dois

- Temos que decidir a modelo agora. De que tipo? – Phil já havia dado a ideia de a modelo fazer pole dance e todos concordamos, o roteiro estava quase pronto.

- Uma morenona, latina. Elas são as melhores. – Ryan falou piscando devagar, como se imaginando. Só aí que eu percebi que a Luna era uma morena desse tipo, não parecia latina, era branca demais para se latina. Mas tinha um corpo lindo e um rosto mais ainda, lábios carnudos… Vai saber se ela não tem descendência mexicana? Ei, é isso!

- Uma mexicana! – Falei. Ou alguma que pareça uma mexicana, que seja.

- Boa, cara, uma mexicana. Existe alguma atriz mexicana que queira dar uns beijos técnicos dentro de um carro com o Bruno Mars? – Phil perguntou para Luna.

- Vou procurar. – Ela declarou e me olhou de relance, olhos tão profundos e bonitos.

- São quase cinco horas, tenho que ir. Vocês também não tinham um compromisso? – Cameron perguntou para mim, e realmente eu tinha um jantar hoje. E nem era aqui em Los Angeles.

- Nossa, é verdade. Temos que ir, Bruno. – Ryan concordou.

- Temos que marcar de novo. Luna é quem vai ajudar vocês em tudo, vou dirigir no geral, mas ela é quem edita e vê os detalhes. Vocês se lembram dela no clipe de Locked Out Of Heaven? – Cam disse.

- Nossa, agora que você disse, eu me lembro. Ela não tinha ficado com o Ryan? – Phil disse e depois de ver os olhos verdes esbugalhados dela, colocou a mão na boca. – Quer dizer, eu me lembro dela.

- Ela estava lá, eu lembro. – Eu disse. Ela ajudou nos detalhes. Mas ela não parecia tão importante como ela está parecendo, parece que antes era assistente e agora é chefe.

LUANA’S POV

Foi por isso que eu pensei que conhecia Ryan de algum lugar, fiquei com ele no ano passado. Que vergonha que passei quando Philip falou isso na frente de todos ali. Quase arrumamos tudo, o roteiro do clipe estava semi-pronto.

- Vamos indo. Temos um jantar hoje. – Philip disse.

- Que dia vamos marcar a próxima reunião? – Perguntei, eles olharam para mim.
- Depende da agenda do Bruno, e aí, Brunão? – Cameron perguntou para Bruno.

- Hoje é terça-feira? Hum… Acho que sexta.

- Eu vou viajar, algum problema se a reunião for só com a Luana? É ela mesmo quem vai editar e produzir. – Cameron disse, ele não tinha me avisado sobre isso.

- Ah não, imagina. Sexta-feira estarei aqui  para a reunião com a Luana. – Bruno disse sorrindo. Cameron se despediu, os meninos também, e eu saí da sala também.

Fui para a minha sala. Ainda tinha que terminar de ajustar o clipe de uma cantora, é uma dessas de começo de carreira, e é bem simpática, tivemos uma reunião na quinta-feira passada. Sentei na cadeira e comecei a trabalhar.

Alguns minutos depois, meu telefone toca.

- Luna, aquele moço que estava na reunião com o Bruno Mars quer falar com você. Ele tá esperando ali no sofá da sala na frente do escritório da Penny. – Lise falou.

- Comigo? Tá bom, fala que eu já tô indo. – Ela desligou.

Pensei em 1) quem seria o moço da reunião; 2) o que ele quer comigo; 3) se eles tinham compromisso, por que ele estava aqui? Salvei o clipe no computador e caminhei para fora, hoje Mark faltou do trabalho. Eu nem tinha percebido isso, amanhã pergunto pra ele o porquê. Fui andando e lá estava o cara musculoso de cabelo comprido sentado no sofá.

- Oi, você quer falar comigo? – Cheguei, eu não tinha muito tempo. Ainda tinha que terminar o clipe e estava quase dando meu horário.

- Ah sim, queria. Você sabe que, desde o ano passado, eu me lembrei de você hoje. E… Vai ter uma festa na quinta-feira, eu queria saber se você pode ir. É claro, se você quiser. – Me deu vontade de rir, eu estava sendo convidada para uma festa. Não foi isso que me deu vontade de rir, mas sim sua expressão.

- Uma festa? – Ele assentiu – Mas, posso levar meu namorado? – Seu rosto ficou com uma expressão meio derrotada.

- Ah, seu namorado? Claro. – Ele foi meio que obrigado a concordar – Cameron também vai, Bruno resolveu fazer uma festa em comemoração ao clipe de Gorilla. Ele convidou algumas pessoas, pra famoso qualquer motivo é motivo de festa, sabe? – Assenti – Então eu resolvi te convidar também, pode levar alguma amiga se quiser.

- Ah, eu tenho uma amiga que adoraria ir. Okay, eu vou. Eu geralmente não vou em festas no meio de semana, mas já que também é em comemoração a Gorilla. Eu vou sim. – Ele sorriu, acho que por educação.

- Até quinta. – Ele falou e saiu.

Dei um breve sorriso e voltei ao meu escritório.
.
Abri a porta de casa e entrei, tranquei-a de novo e joguei minhas coisas sobre o sofá. Eu estava exausta, deram algumas complicações no clipe e tive que ficar lá até quase oito da noite. Fome, sono, cansaço… Tudo isso eu sentia. Caminhei até meu quarto enquanto tirava os sapatos, coloquei-os dentro do guarda-roupa e comecei a me despir. Entrei no banheiro e adentrei a água morna do chuveiro, como isso é relaxante! Meu cabelo estava preso com uma presilha, e até fechei os olhos ali. Me ensaboei, me enxaguei, me enrolei na toalha e saí. O dia todo esteve nublado, e agora uma leve garoa banhava minha janela. Coloquei um pijama comprido, eu estava com a barriga parecendo um alçapão. Um buraco sem fundo precisando  ser preenchido. Pensei em como isso foi idiota, porque se o buraco não tem fundo, ele não pode ser preenchido. Balancei a cabeça tentando parar de pensar em buracos, e sim em comida. Abri a geladeira e não havia muitas opções, anotei num bloquinho na geladeira que precisava ir ao mercado. Acabei por pegar um pacotinho de sushi, precisavam ser colocados no micro-ondas para voltarem ao normal, pois pareciam pedras. Coloquei eles lá e fui me sentar no sofá. Peguei o celular e disquei o número do Stev, só me lembrei agora que eu tinha falado de levar meu namorado na festa antes de consultá-lo. Enquanto chamava, liguei a TV em algum canal qualquer e estava na MTV, tocando uma música lenta e melancólica.

- Alô? – Ele atendeu.

- Oi, Stev.

- Ah, oi, linda. Tudo bem?

- Aham, tudo. Hum… Você vai estar aqui na quinta-feira?

- Eu não tinha programado de ir aí na quinta, não sei. Por quê?

- É que me convidaram para ir a uma festa e eu falei que levaria meu namorado, você tem alguma coisa na quinta? É uma festa de um cantor, você deve conhecer, o Bruno Mars. Ele está fazendo o clipe comigo e com o Cam e ele quis dar uma festa em comemoração, você sabe, eles gostam de jogar dinheiro fora. – Ele riu. Expliquei tudo na esperança de ele dizer que iria comigo.

- Acho que consigo, se não marcarem uma reunião do nada. Stefan vai ir para aí amanhã, e acho que você terá que levá-lo na festa também. Se for incômodo no seu trabalho, pode deixar que…

-  Não, não, incômodo nenhum. Gosto dele, e acho que a Lea também vai querer ir, então vamos todos nós. Vê aí se você consegue, okay?

- Claro, meu amor. Sabe, já estou com saudades.

- Eu também. – Não tanta assim, porque não fazia nem vinte e quatro horas que ele saíra daqui, mas de certa forma…

- Queria morar aí, você sabe, mas senão fosse eu, mamãe estaria desolada. Coitada. Ela é uma santa, e meu irmão fica com essas mal-criações com ela. Ele não superou a morte do meu pai, acho que ficar uma semana fora vai dar uma ajuda a ele. – Ele não tinha falado de semanas aqui em casa, mas não fará muita diferença.

- Eu sei, eu sei, sua mãe precisa de você e você a ajuda. Estou muito orgulhosa de você. – Ouvi o barulho de seu corpo pulando na cama.

- Obrigado, amor, bem, agora vou dormir.

- Vou comer e logo dormir também, hoje o dia foi cansativo. – Ele bocejou do outro lado da linha. Eu também.

- Boa noite, princesa.

- Boa noite.

Às vezes eu sinto como se alguma coisa estivesse errada. Mas não, está perfeito. E é isso o que parece errado: a perfeição. Ele não tem nenhum defeito, nosso relacionamento não tem nenhum defeito, ele é apenas normal. Somos um casal normal que mora separado e quando se vê, mata a saudade. Não saímos muito, mas ele sempre me manda buquês e presentes. Parece que antes de nos conhecermos, ele planejou tudo. Parece que ele utilizou as contas da empresa de contabilidade que trabalha e calculou o nosso relacionamento, tudo o que ele precisaria fazer para nada nunca sair do controle. Para tudo sempre estar em linha reta, sem interrupções ou interveio.

Fui para a cozinha e peguei os sushis do micro-ondas, peguei um garfo e fui para a sala. Comi enquanto assistia ao jornal, vendo as notícias. A previsão do tempo revelara uma semana com o tempo nublado e chuvoso, uma massa de ar frio estava se aproximando de Los Angeles. Lea iria ficar sem nadar a semana toda. Aliás, preciso falar pra ela sobre a festa. Com certeza ela irá, não tem nada para fazer provavelmente, só se achar algum par de calças.

Coloquei o prato na pia, lavei a louça e guardei. Uma mulher vem três dias por semana para limpar a casa, se chama Jude, ela veio ontem e virá amanhã. Mas nos dias em que ela não vem, eu que lavo a louça e arrumo o que estiver desarrumado. Fui me “arrastando “ até meu quarto, deitei na cama e apaguei. Acordei antes do despertador, a janela estava meia aberta e eu estava com frio. Olhei no relógio e ainda faltava alguns minutos pra dar a minha hora de levantar, então me afundei no travesseiro de novo.

- ACORDAAAAAAAA! – Acordei com um corpo em cima do meu, Lea, tão cedo.

- Posso saber que pouca vergonha é essa na minha cama? – Me levantei e olhei no relógio, havia se passado quarenta minutos desde a primeira vez que acordei.

- Vim te acordar porque vamos fazer compras antes de você ir trabalhar, vamos ao shopping! – Disse sorrindo. Acho que o lugar preferido dela, depois da minha casa, é o shopping.

- E a propósito, você vai numa festa na quinta-feira à noite. O Stefan chega hoje e eu tenho que ver se ele também vai querer ir, convidei o Stev.

- Festa de quê? – Eu estava escovando os dentes, ela sentada em minha cama.

- Do Bruno Mars, em comemoração ao novo clipe dele que está cinco por cento pronto. – Ela arregalou os olhos.

- Do Bruno Mars? Do cantor Bruno Mars? Aquele que tem a música da granada e dos macaquinhos? E aquela outra do fora do paraíso? Ele mesmo? – Ela estava a ponto de virar fogos de artifício e sair pelo céu.

- Aham, ele mesmo. Agora sai daqui, porque se formos mesmo ao shopping, não podemos demorar. E eu vou me trocar. Chispa. – Ela mostrou-me a língua e saiu.

Coloquei uma calça jeans, uma blusa, minha jaqueta de couro e meus saltos. Passei apenas um delineador e batom, e saí. Ela já estava na sala com uma blusa e uma saia longa, aquela vaca fica linda de qualquer jeito.


- Vamos? – Sorriu. E fomos.

Capítulo Um

- Cameron arranjando trabalho de novo? – Lea perguntou, ela não se dava muito bem com ele.

- Eu teria trabalho de qualquer jeito, sorte que hoje eu entro mais tarde e só vou nessa reunião. Depois da reunião ainda tenho que terminar de ajustar um clipe com alguma cantora que eu esqueci o nome. – Respondi pegando uma maçã e voltando para meu quarto, provavelmente ela ficaria aqui até não ter mais nada o que fazer.

- Ei, eu aprendi a fazer ovos mexidos. Vamos almoçar ovos mexidos? – Isso seria mais apropriado para o café da manhã, mas eu acordei onze horas então não tomei café.

- Aprendeu assistindo TV né? Tá bom, pode ser. – Gritei de volta.

Sentei na minha cama, depois de arrumá-la, e peguei meu celular. Entrei no Twitter. Mark estava reclamando da vida ali. Mark é meu colega de trabalho e sala, ele só dava ideias para os clipes. E esse em especial, lhe fez subir de cargo.

- Como estou? Horrível demais? – Perguntei chegando à sala, Lea estava deitada assistindo TV.

- Está linda, como sempre. Aliás, esse blazer será roubado assim que sair do seu corpo. Te deixa mais séria, não com essa cara de debochada que você tem naturalmente. – Dei o dedo do meio e ela riu. Eu estava com uma calça social preta e uma camisa transparente preta e branca listrada, e com um blazer azul marinho.

- Então eu já vou indo, são quase duas horas, e se eu pegar trânsito eu tô ferrada. – Peguei minha bolsa e o celular, mandei beijos no ar e ela retribuiu. Sorri ao pensar na figura dela todo dia no meu apartamento enquanto olhava para a porta do seu bem na minha frente.

Cumprimentei o porteiro e fui para o estacionamento pegar meu carro. Alguns minutos depois eu já estava a caminho da produtora, liguei o rádio e estava tocando uma música animada. Depois o locutor disse que se chamava “Treasure”, mas eu não ouvi o nome do cantor. Alguém buzinou estridentemente para uma moto que o ultrapassara. Aquela música ficou colada na minha mente, fiquei cantarolando-a o caminho todo e quando cheguei também.

- Bom dia, Tally. – Cumprimentei o porteiro.

- Bom dia, Luana. – Respondeu sorridente, sempre que eu chegava ele estava ali. Nunca o vi faltar, isso é admirável.

Trabalhar no décimo terceiro andar de um prédio gigante não é tão legal quanto parece, ainda mais quando o elevador não é dos mais rápidos. Entrei no elevador ainda sozinha. No quarto andar entrou um homem quarentão de cara fechada; depois no sexto entrou uma moça com uma saia curta e um grande decote, o homem olhou para ela e sorriu. A pessoa mais agradável que entrou no elevador foi um loiro alto que dominou o ambiente com seu perfume forte e amadeirado, suspirei antes de sair dali e andei.

Olhei no relógio e eram duas e dez. Andei um pouco mais rápido. As pessoas me cumprimentavam com “oi Luna” ou “oi Luana” pelo caminho, eu respondia oi sem prestar atenção. Quando finalmente cheguei à porta fechada respirei aliviada calmamente e repeti para mim mesma que tudo iria dar certo. Tudo deu tão certo, que a porta não queria abrir. Emperrou. Girei a maçaneta e a empurrei, mas ela não ia, empurrei e empurrei até que ela se abriu de uma vez me fazendo tropeçar para frente.

Na mesa estavam três homens. Um com os cabelos negros num coque no alto da cabeça, barba rala debaixo do queixo, musculoso com uma tatuagem no ombro esquerdo. Receio já conhecê-lo; o outro com a pele mais escura dos três, um chapéu, óculos com grandes armações e sorriso simpático; o último estava com o cabelo bagunçado num afro, olhos grandes e expressivos, pele bronzeada, quando falava revelava covinhas, e quando sorriu ao me ver, revelou-as de novo.

- Você está bem? – O moreno de óculos grandes perguntou. Senti minhas bochechas queimarem.

- Sim, sim, obrigado. – Passei a mão nos cabelos tentando arrumá-los, eles pareceram estar arrumados. Sentei ao lado do cara musculoso, onde será que Cameron se meteu?

Me sentei e ouvi algumas risadas silenciosas, deviam estar contando piadas entre eles.  Annelise entrou na sala trazendo um café do Starbucks, respirei aliviada. O clima não estava legal, os três falando baixo entre si e eu ali com cara de pamonha.

- Oi, Luna. – Me cumprimentou e se abaixou ao meu lado, vi o olhar do carinha de cabelo cacheado olhar seu corpo.

- Oi, Lise. – Ela me entregou o café, café puro como sempre – Ah, obrigada.

- De nada, Cameron parece que vai se atrasar um pouco. Ainda não ligou, mas parece que vai chegar atrasado. Ele teve que sair correndo por causa de alguém que precisava ir ao hospital, nem avisou ninguém. - Ela falou explicando e depois saiu. 

O homem que a olhava começou a cantarolar baixinho enquanto batucava com os dedos na mesa, eu reconheci aquela música imediatamente.

- Ei, é você quem canta essa música, não é? – Ele me olhou sem entender – Hmm… Treasure! Isso, se chama Treasure. – Ele sorriu.

- Ah sim, eu canto. O clipe dessa música saiu não faz nem um mês. Mas… Não lembro de você. – No mês passado eu estava de férias, então é obvio o porquê de não nos lembrarmos um do outro.

BRUNO’S POV

Finalmente, tive uma folga de todas as entrevistas e shows para vir preparar o clipe de Gorilla. Amanhã mesmo tenho show em outro estado, mas vim aqui na produtora para definirmos o começo de tudo. Já tenho tudo na mente, vai ser fantástico. Essa música é fantástica, a melhor que já escrevi minha vida toda. 

Ela ao vivo também é uma ótima performance, gosto da pirotecnia dela. E hoje, marquei uma reunião com o Cameron Duddy para conversarmos e marcarmos as gravações, discutir atrizes, tudo.

Chamei o Phil, Ryan não tinha academia hoje e falou que ia me acompanhar porque ele precisava saber das coisas por ser meu assistente pessoal. Concordei de certa forma, ele é meu assessor realmente. Dormi a manhã inteira, ontem fui a uma festa e cheguei bem tarde, então só acordei pra comer uma maçã e passei no apartamento do Ryan para pegá-lo. Encontrei Phil na frente do prédio e fomos os três lá pra cima, Cameron não estava ali, mas uma moça nos encaminhou até uma sala de reuniões.

Ficamos os três sentados sozinhos lá, Ryan falando sobre a mulher que ficou na semana passada que ainda estava o perseguindo e ele não tinha muita ideia de como despachá-la porque ela era gostosa demais. Phil falou sobre Urbana, que ela estava desconfiada que ele estava a traindo e estava mal-humorada nessa semana. Apesar de todas as mulheres que vem até nós todas as noites em que saímos, e de vez em quando até quando não saímos, ele não fica com elas. Só os solteiros da banda aproveitam, e Dwayne de vez em quando. Eu fiquei só ouvindo os dois, pensando sobre o que faríamos e quando Cameron ia chegar.

Ryan chamou a nossa atenção para a porta, ele falou que estava ouvindo barulhos. E realmente, a porta abriu de uma vez e entrou uma mulher aos tropeços. Ela estava com uma calça social, uma camisa quase transparente e um blazer. Ela não percebeu, mas eu espremi os olhos para ver se captava algo debaixo da camisa, sem sucesso. Phil perguntou se estava tudo bem e ela falou que sim, estava com as bochechas bem coradas. Ryan cochichou entre nós que a conhecia de algum lugar enquanto ela caminhava até a cadeira, ela cruzou as pernas e os três olharam ao mesmo tempo, mesmo ela estando de calça, rimos silenciosamente.

Uma moça chegou com um café, que corpo, que curvas, meu Deus do céu. Ela se agachou e os três olhamos novamente, ela avisou que Cameron iria se atrasar e depois saiu novamente. Comecei a cantarolar e batucar na mesa, a moça que estava conosco reconheceu a música, parecia que acabou de descobrir que eu sou o cantor dela.

- Bom, acho que como o Cameron irá se atrasar, é melhor começarmos. – Falou depois de parar de sorrir ao me ouvir cantar.

- Okay, vamos começar. – Phil concordou, eu também. Ryan não tirava os olhos dos seus peitos, eu o cutuquei por debaixo da mesa.

- O que você tem em mente para o clipe de… Gorilla, a música chama Gorilla né? – Perguntou e eu assenti.

- Eu estava pensando numa boate, uma boate de strip-tease. Eu e minha banda iríamos cantar lá, e depois… Bem, depois eu ainda não resolvi muito bem. – Falei o que eu pensava, na verdade eu estava pensando em algum beco ou quarto, talvez um camarim. Eu e a modelo lá, fazendo amor igual Gorilas. Mas a mídia não iria gostar tanto assim.

- Eu li a letra da música, já ouvi também, muito boa. Senhor Bruno Mars, depois, o que você estava pensando que ainda não resolveu? Bem, eu não sei o que você quer. – Ela parecia muito mais séria do que aquela menina que entrou tropeçando na sala.

- Ele estava pensando em dar uns amassos na modelo depois, alguma coisa mais fogosa. – Ryan falou antes de mim, me senti desconfortável com o olhar que ela jogou sobre mim.

- Bruno, por favor. – Referi-me a ela me chamar de “Senhor Bruno Mars” – E é verdade, eu estava pensando em algo assim. Talvez em algum canto qualquer da boate. – Ela surpreendentemente sorriu.

- Ótimo. E se… Eu estava pensando, e se fosse num carro? Me veio essa ideia agora. – Ela falou. Achei ótima a ideia, um carro. Um carro, eu e alguma mulher linda que acabou de ficar seminua num palco nos pegando num carro.

- Qual o seu nome mesmo? – Ryan se intrometeu de novo.

- Luna. Luana Sanders. – Disse e sorriu. Luna. Repeti o nome para mim mesmo.

- Na verdade, Luna, achei essa ideia ótima. – Cameron entrou falando, ela sorriu brevemente. Ele me cumprimentou com um aperto de mão, Ryan e Phil também. – Então, garotão, com planos de pegar alguma modelo por aí? – Ele perguntou e eu ri.

- Vai ser tudo técnico, você sabe. – Falei sorrindo.


- Olha, já comecei a planejar aqui no notebook. – Luna nos mostrou uma imagem com o fundo todo vermelho, e depois nos mostrou uma palheta de letras. Os meninos ajudaram e acabamos por escolher uma letra mais rústica, parecia madeira. Disse que no começo tocari aquele toque da bateria e o grito de um gorila. Ela escreveu “Bruno Mars”, mudou a cor de fundo para preto. E escreveu  “Gorilla”.


Prólogo


Tudo silencioso. Será que é hora de acordar? Não, possivelmente não. Passei a mão do meu lado e Stev ainda dormia ali, definitivamente não é hora de acordar. Virei-me para o outro lado e peguei no sono novamente.

Antes que o despertador terminasse de soar, desliguei-o.
Steven já foi trabalhar, me levantei e cocei os olhos. Sorri brevemente ao lembrar da noite passada, ele é meu namorado, mas quase nunca está disponível por causa do trabalho. E quando ele vem dormir aqui em casa, bem, ”aproveitamos”.

Fui me arrastando até o banheiro, fiz minhas necessidades e fiquei parada olhando meu reflexo no espelho. Meu cabelo castanho escuro parecia mais vivo, eu parecia mais corada, minha pele mais morena, no geral eu ficara melhor com a visita inesperada de Stev. Ele é um homem perfeito, é lindo, inteligente, tem um emprego ótimo, é carinhoso, e acima de tudo, me ama. Amamos-nos, aliás.

Ele não mora aqui em Los Angeles, depois que seu pai morreu, sua mãe ficou um pouco mais sensível. Ela precisa de mais carinho, segundo ele, e morando aqui ele não conseguiria dá-lo. Então mora em Santa Mônica. Ele tem um irmão, se chama Stefan, que está na fase da adolescência e parece que depois desses anos ainda não superou a morte do pai, e meio que culpa a mãe. Meu sogro morreu devido uma doença no fígado, ele bebia demais, minha sogra brigava com ele por isso, e pela briga ele bebia mais ainda. Stev é 
mais apegado à mãe, e Stef era ao pai.

E eu, ah, eu não consigo falar de mim. Uma jovem de vinte e seis anos, feliz, trabalha numa produtora, tem um namorado, mora sozinha, o pai mora numa cidade pequena no Texas e a mãe em Orlando. Tenho uma irmã de quinze anos e um irmão de vinte e três, Louise e Jimmy. Meu irmão mora aqui em L.A. também, já minha irmã mora com minha mãe. Meus pais são separados.

Saí do transe do espelho e saí do banheiro, meu apartamento é pequeno: dois quartos (um é a minha suíte), uma cozinha, dois banheiros, uma sala. Pronto, acabou. É claro que no prédio que eu moro, tem uma piscina lá embaixo, um bar, salão de festas e todas essas coisas. Com o meu salário, vamos dizer que dá pra viver. Produzo clipes, ajudo no planejamento, no roteiro, na execução, na edição, em tudo. Na maioria das vezes, junto com Cameron Duddy. E isso dá um bom rendimento no geral. Conheço artistas, vejo os clipes antes, isso tudo é bem legal.

Meu celular começou a tocar e eu fui correndo para pegá-lo no criado mudo.

- Bom dia, anjo. – Steven, me cumprimentou.

- Ah oi, amor. – Respondi.

- Dormiu bem? Tive que sair bem de manhã pra chegar mais cedo, acabei de sair da reunião.

- Dormi, quer dizer, depois que acabamos dormi. – Ele riu, eu sorri.

- Que bom, eu saí e você dormia como uma anjinha, tão linda. – Ele sempre me elogia, acho que é o que mais faz na vida. Dar elogios.

- Você é tão fofo que deveria ganhar um prêmio por isso, sabia? Geralmente meu cabelo fica desgrenhado quando acordo, só depois ele melhora. É gentileza sua. – Falei.

- Claro que não, você é linda desde o momento que acorda até dormir de novo.
- Deu vontade de te apertar agora, venha cá. – Rimos. Ouvi alguém chamar seu nome.

- Ah, linda, tenho que ir. Meu chefe está me chamando, eu liguei pra falar que o Stefan vai ir aí pra 
Los Angeles amanhã e perguntar se ele pode ficar aí na tua casa. Ele vai fazer uma prova pra 
faculdade daí, sabe, ele já está vendo isso porque ele está no terceiro ano e ele quer ganhar uma 
bolsa para 2015. – Stefan é mal-educado com a mãe e o irmão, mas eu ele parece tratar normalmente. 

Então não havia problema.

- Claro que ele pode ficar aqui, sem problemas. Pode ir lá, seu chefe te chama. Te ligo mais tarde, beijos. – Ele respondeu “beijos” e desligamos. Penso se possa existir um relacionamento tão perfeito assim, estamos namorando desde o final de outubro de 2012, e nunca brigamos. Acho que apenas uma vez quando ele queria comida italiana e eu japonesa, discutimos e no final comemos uma pizza. Sempre foi tudo perfeito, normal, simples.

Enquanto prendia o cabelo num coque, eu caminhava em direção à cozinha. Quando cheguei, dei um breve grito.

- Ah, bom dia. – Essa é Lea, minha melhor amiga desde os tempos da faculdade, ela mora no apartamento da frente. Mas não sai do meu.

- Bom dia, sem teto. – Respondi e ela riu.

- Não sou sem teto, eu sei que você ama acordar e ver uma linda e loira mulher tomando o seu leite sensualmente.

- Nossa, está mesmo muito sensual você acabando com meu cereal e meu leite, derrubando na roupa com maestria e tudo. – Ela riu.

- Cheguei faz uns quinze minutos, nem comi tanto. Acho que vou nadar um pouco hoje, parece que vai fazer calor. – Ela não trabalha, o pai é dono de uma empresa muito próspera e sustenta Lea aqui. De vez em quando ela resolve procurar um emprego, fica nele durante algumas semanas, e depois sai pelos mais variados motivos. Ela saiu do último porque ficou com  o chefe e depois deu um pé na bunda dele, e foi dispensada.

- Você acha tanta coisa… Olha lá fora, tá tudo nublado e ventando. – Apontei para a janela e ela olhou – Vai chover hoje, certeza.

- Que porcaria, queria nadar. – Torceu o lábio – Chuva de verão é totalmente detestável. Ouve, seu celular tá tocando.

Era verdade, eu nem havia percebido ele tocar no meu quarto. Fui correndo até lá, peguei-o e depois voltei para a cozinha.

- Bom dia, Luana. – O número não tinha o nome registrado, e não reconheci a voz.

- Bom dia, com quem falo?

- É a Sheila da produtora, o senhor Cameron me pediu para avisar que vocês tem uma reunião às duas e quinze da tarde. A senhora irá comparecer? – Essa tal Sheila ficava na recepção de manhã, e como o meu turno é a tarde eu nem sei quem ela é direito.

- Claro, pode avisá-lo que estarei presente. – Ela fez um “uhum”, nunca vi a Sheila, mas parece ter mais de quarenta anos.

- Tudo bem, Luana. Obrigada. – Desligou.