quarta-feira, 28 de maio de 2014

Capítulo Seis

- Que dia ela chega? – Perguntei me sentando.

- Quem vai chegar? – Steven apareceu na cozinha, contaminando-a com seu perfume masculino e caro. 

Sim, ele só tinha coisas caras e de marca. Ser contador de uma empresa não é totalmente mau.

- Prima da Lea, amiga antiga minha. – Ele murmurou algo como “ah, sim”.

- Chega na semana que vem. E ah, bom dia, Stev. – Lea sorriu para ele.

- Bom dia, Lea. – Ele sorriu de volta.

- Vou tomar banho. Stev, faça alguma coisa para comermos?

- Claro, meu anjo. – Ele andou até a geladeira.

- Ai, meu anjo. – Lea o imitou com uma voz fina e fanha nos fazendo rir muito. Fui para meu quarto, e tudo o que ouvia eram gargalhadas vindas da cozinha.

Tomei meu banho tranquilamente. Ainda não eram nem nove horas, e eu só entraria às duas. Às sextas, eu entro mais tarde. É por isso que geralmente aceito compromissos na quinta à noite: porque eu posso dormir até o meio-dia se quiser. Tentei tirar toda a preguiça do meu corpo – coisa realmente difícil. Mas não queria tirar o cheiro da pele de Stev, aquele cheiro amadeirado e gostoso que me recordava a noite passada. Mas foi inevitável. É claro que depois eu iria o encher de abraços e carinhos, só para ficar com aquele cheiro de novo.

Terminei o banho e caminhei até o closet, após sair do banheiro. Coloquei um short e um top. Cheguei à cozinha e Steven fazia torradas na torradeira, a mesa estava toda posta e arrumada, parecia um banquete. É isso o que meu namorado faz, pensei feliz. Já minha amiga, que não faz nada, estava tomando café. Aquele cheiro invadiu meu nariz, e eu inspirei.

- Que cheiro bom. – Sorri sem mostrar os dentes. Steven abriu a boca, mas antes de falar, foi cortado por Lea.

- Ah, não. Nem venha me falar que é porque ela recém-chegou e perfumou o ambiente com seu creme ou sei lá o que ela passa, já segurei muita vela por hoje. – Eu ri e dei um tapa em sua cabeça. – Ai. – Reclamou e eu ri novamente.

- Oi… Ai… Oi. – Um Stefan branco e pálido, parecendo sedentário apareceu na porta da cozinha.

- Stefan, eu já tinha te avisado para não se levantar. – Steven falou um pouco severamente, Stefan se sentou.

- Está com fome? Você precisa se alimentar. – Falei e Lea se levantou e andou até ele.

- Não, não quero comer. Quero só deitar de novo, não sei nem porque fui me levantar. – Ele falou com a mão na cabeça, possivelmente com dor.

- Gente, posso cuidar dele? Preciso de uma ocupação. – Lea sorriu para ele, que deu um sorriso mísero e sem mostrar os dentes.

- Contanto que ele ainda esteja vivo no final do dia, tudo bem. – Falei.

- Hoje vou sair à tarde, e alguém ia ter que ficar mesmo. – Stev deu de ombros.

- Okay, então. Vou cuidar do Stef. – Ele assentiu parecendo… Mais feliz? É, pois é. Ele estava como um drogado, totalmente sem noção de tempo e espaço.

Ela o levou para dentro e só voltou para fazer uma sopa um pouco mais tarde. Fui trabalhar e saí de casa às uma e meia. Steven saiu e não avisou onde ia, mas passou a tarde fora. Pelo o que Lea me informava, Stefan estava se recuperando bem e comeu um pouco de miojo que ela fez(acho que isso é a coisa mais perto que temos de Lea na cozinha, além de ferver água).

Tive a reunião com o Little Mix, aquele grupo que eu dirigi o clipe. Elas adoraram! Fiquei muito contente, pois cliente feliz é cliente feliz. Além de que, eu recebo uma porcentagem dependendo da repercussão do clipe, e aquele lá parece que vai ser ótimo para a carreira delas e, claro, a minha. Mark também estava muito feliz, iria fazer o clipe da Rihanna. Nunca nem imaginei em chegar perto da Rihanna, porque apesar de tudo, sou uma cidadã normal que não tem grandes privilégios só por conhecer alguns artistas, e no geral, como são novatos, eles nem se lembram da minha existência caso a fama venha a calhar.

Mas começar pelo Bruno Mars, já foi um bom começo. É claro que aquela galinhagem toda dele tem que ser algo mais pessoal para ele fazer lá fora, não no local de trabalho, mas isso não me envolve e a única coisa que quero dele é o clipe de Gorilla. Que por sinal, também vai ser maravilhoso. Ele falou na reunião de ontem que as fãs estão esperando por esse clipe, e depois que foi divulgado que essa música teria mesmo um clipe, elas enlouqueceram. Ele deve ter bastantes fãs, mas vai saber, não acho que sejam tantas como o Justin Bieber ou alguém do gênero. Mas não sei desse universo fanático, então isso não me importa.

- Você viu, vou ter uma reunião com a Rihanna! – Mark falou me tirando dos devaneios sobre a fama alheia.

- Vi. Ah, se der, pega um autógrafo pra mim? Pego um do Bruno pra você! – Falei e ele riu.

- Se der, é claro que eu pego, gatita. – ele me chamava de “gatita”, ou “gata”, ou ainda “gatinha” e eu o mesmo, somos amigos sem restrições. – E pode deixar que daquele lá eu não quero, credo, ele é tão idiota. – Fez uma careta.

- Jura que achou isso? – Virei a cabeça.

- Completamente. – Ele revirou os olhos e continuou digitando.

Lembrei-me da minha mãe e do meu pai, dos meus pais e do tempo que fazia que eu não ligava para eles. Nenhum deles. Peguei meu celular e liguei para minha mãe, pois agora meu pai deveria estar trabalhando ainda.

- Alô? – Ela falou ofegante.

- Mãe?

- Ah… Oi… bebê… - Ela não conseguia falar sem ofegar.

- Mãe, o que você tá fazendo? – Ela não deixava chamá-la de senhora, diz que é pra velhinhas.

- Eu? Ai… tô numa… tirolesa.

- Mãe!?- Falei num tom repreensivo.

- Filha!? – Ela me imitou. – Ui, cheguei. – Ouvi barulho de alguma coisa se desprendendo.

- Mãe, o que você estava fazendo numa tirolesa? Em plena sexta-feira? E onde achou uma tirolesa em Orlando? A Disney tá disponibilizando? – Eu estava incrédula que minha mãe estava numa tirolesa enquanto falava comigo, e ainda mais por ela falar ao telefone numa tirolesa.

- Calma, menina, parece minha mãe. Olha, eu vim dar uma volta no novo parque que tem aqui em Orlando e aproveitei a tirolesa, ué. – Essa é minha mãe. Eu ri.

- Okay, okay, mãe. Está tudo bem aí?

- Claro, meu amor. E aí? Como vão as coisas? Soube que seu cunhado com cara de Tom Cruise está na sua casa, e doente. – Ela diz que Stefan tem cara do Tom Cruise mais jovem, nunca achei, mas ela tem certeza.

- É, ele está doente, e na minha casa. Stev também está aqui, veio passar o fim de semana.

- Use camisinha porque não quero ser vovó de netos com cara de Tom Cruise, okay? – Eu gargalhei. Ela também acha Stev com cara de Tom Cruise, só que “um pouco mais velho que o Tom Cruise materializado no Stefan”.

- Tá bom, senhora Sanders.

- Senhorita. Porque, convenhamos, você é mais senhora que eu enfurnada no escritório enquanto curto uma tirolesa com um ventinho nas extremidades. – Ela riu de si mesma, me fazendo rir.

- E a pequena, como vai? – Eu sempre chamei minha irmã de pequena por ser baixinha. E ela sempre me respondeu com um “olha quem fala, Luana”.

- Está bem. Terminou com aquele namorado, graças a Deus. Ele era uma péssima influência pra ela, você sabe, mas não sei o que deu nela e num dia chegou e me avisou que havia largado dele. Ele era bonitinho, uma pena ser daquela laia. Se fosse mais velho, sabe… - Esse é mais um ponto da minha mãe, os homens. Ela geralmente tem um novo namorado a cada de cinco a seis meses. Mas foi bom saber que Louise largou daquele namorado dela – Louise é o nome da minha irmã. – Pelo menos ela não me apareceu grávida aqui, acho que ainda estou controlando essa parte dela.  

Isso é a única coisa que a minha mãe não aceita de jeito nenhum: gravidez. Depois que eu comecei a morar sozinha, tenho meu próprio emprego, carro e independência financeira, ela não pega no meu pé. Mas no da minha irmã, deve pegar do mesmo jeito que fez comigo ou pior. “Sem bebês, sem invasão de privacidade.”

- Ah claro, que bom. Pede pra ela me ligar qualquer dia desses…

- E o seu irmão? Quando viu ele?

- Jim? Ih, ele literalmente sumiu. Faz quase um mês que não nos vemos, mas Stev disse que viu ele há alguns dias quando foi ao mercado na semana passada. – Falei. Realmente fazia tempo que não via o Jimmy, ainda bem. Ele é praticamente a ovelha negra da família, tem três namoradas, bebe demais, fuma cigarros e sabe-se-mais-lá-o-que, vive por aí com sua caminhonete empacotada de auto-falantes que fazem qualquer tímpano doer pelas ruas. E não se dá bem com ninguém da família.

- Filha, a mamãe tem que ir. Vou dirigir agora, buscar a sua irmã na casa de uma amiga e depois fazer mais um monte de coisas. Tchau, meu amor.

- Tchau, mãe. Se cuida. – Me despedi.

- Quem tem que mandar se cuidar é a mãe, e não a filha. Mas, devido aos fatores que eu tenho mais adrenalina todos os dias… Pode deixar que eu vou me cuidar. – Eu ri. – Beijos, Luna.

- Beijo.

Desligamos.

Minha mãe sempre foi uma piada, sempre divertida, sempre amiga. Ela quem sempre soube de tudo, do meu primeiro beijo, minha primeira vez, meu primeiro namorado, tudo. Sempre fomos muito amigas. E ela, sempre divertida, colorindo a vida com suas loucuras. Ela é assim com todo mundo, com todos os filhos, mas a única que ela não se dá tão bem é a Louise. Não sei o porquê, as duas não são tão uma com a outra. Só apenas fazem o necessário.

Olhei no relógio e eram quase cinco horas. Hora de ir. Peguei minha bolsa e o celular, recoloquei meu casaco e lenço, dei tchau a Mark, dei tchau a Lise (que por sinal, e porque eu esqueci de dizer, está totalmente gamada no Bruno, me pergunta todos os dias quando será a próxima reunião), e saí.

Abaixei a cabeça e olhei meu celular, havia uma mensagem da Lea. Ouvi buzinas estridentes e olhei para cima novamente. Steven estava ali no seu Pajero cor verde-musgo metalizado (Lea costuma chamar de cor-de-merda brilhante, mas enfim). Caminhei a passos largos até o carro e entrei. Ele trancou as portas e arrancou.

- Veio me buscar? Que amor. – Falei enquanto dava um beijo em sua bochecha.

- É, vim te buscar. Comprei uma coisa pra você, e vamos sair pra jantar hoje. – Disse sorrindo todo misterioso.

- Uma coisa? – Eu já estava curiosa.

- É, ué.

- Não vai me contar o quê?

- Hummmm… Não. – Eu dei um tapa em seu braço. – Ei! Ai! – Deu risada.

- Você sabe que eu odeio surpresas, Stev. – Falei e cruzei os braços. Ele alternava os olhares do trânsito para mim.

- Ah, meu amor. É por uma boa razão. Você vai adorar a surpresa, meu anjo. – Disse sorrindo e olhou brevemente para mim com aqueles olhos caramelados.

- Você me dá tantos apelidos, me chama de anjo e amor, enquanto eu só chamo pelo seu nome. Parece tão não-amoroso da minha parte… - Falei e ele riu.

- Imagina. Não me importo, gosto quando fala ‘Stev’ com esses dentes branquinhos e lindos. Gosto ainda mais quando sorri pra mim e descruza os braços. – Eu sorri. – Isso, minha linda, fique feliz. Hoje você vai ficar feliz, com o presente. – Ele estava tão carinhoso… Mais que o normal, ainda. Nossa.

- Posso aumentar? – Perguntei com a mão no rádio.

- Claro. – Sorriu.

- E agora, fiquemos com Bruno Mars interpretando a linda canção It Will Rain, já voltamos. – O homem de voz grossa e radialista disse e uma música lenta, muito lenta, começou.

- Não é desse cara que você tá fazendo clipe? O famosinho? – Stev perguntou enquanto virávamos a próxima curva.

- É, é sim. Mas essa música dele é antiga, acho que 2010 ou 2011, por aí. Vou fazer o clipe de uma música mais atual, do novo CD. É uma das músicas mais pecaminosas que eu conheço, sabe. – Ele riu, eu também.

- Jura? O carinha da granada fazendo músicas desse tipo? – Eu ri com ele falando “o carinha da granada”, além de que sua cara estava muito engraçada.

- Pois é. – Depois ficamos em silêncio o resto do caminho. A música do Bruno estava no fim, mas mesmo assim era linda. Depois tocou músicas de outros cantores e cantoras pop. Encostei para trás no banco, até me cansar. É meia-hora do trabalho pra casa, e agora que posso descansar um pouco, vamos lá…

- Dorminhoca, chegamos. – Acordei. Cochilei alguns minutos, eu acho. Stev olhava para mim e me ajudou a me recompor depois. Quando saí, meu cabelo voou para o meu rosto.

Fui para dentro enquanto Steven estacionava o carro. O elevador estava totalmente vazio. Era triste, mas a única coisa que eu queria fazer nessa sexta-feira é dormir e dormir. Debaixo das cobertas, talvez assistindo a um filme. Mas definitivamente não queria sair.

Entrei e a casa estava silenciosa. Totalmente. Caminhei pelos cômodos e não ouvi nada, mas a porta do quarto de hóspedes, que agora é de Stefan, estava fechada. Bati nela com os nós dos dedos.

- Estão todos de roupa aí? – Falei alto, mas ninguém respondeu.

Eu pensei: Ai meu Deus.

Mas quando eu entrei, a surpresa foi maior. Stefan estava dormindo abraçado à Lea, como se ela fosse sua boneca de pano e ele uma criança que está aprendendo a dormir na própria cama sem os pais. Ela também dormia tranquilamente, parecendo aconchegada ali. Meu Deus amado, como isso foi acontecer?, pensei.

Deixei-os dormindo ali. Fui para meu quarto, para meu banheiro mais precisamente. Se meu namorado queria sair, e ele não estava frequentemente aqui, então é melhor que eu me mexa pra criar coragem e sair com ele. Tomei meu banho, afinal. Eu ainda tinha vontade de dormir quando saí, mas tive que me segurar para não saltar na cama, e fui me trocar.

Coloquei um vestido de noite, não tão chique, não tão simples. Sequei o cabelo e deixei-o solto mesmo, o tempo chuvoso o deixava num ondulado quase cacheado. Steven passou por mim, me deu um beijo, e foi para o banheiro. Enquanto ele se banhava, procurei algum sapato adequado.

- Vamos a um restaurante chique ou algum bar extrovertido? – Gritei próxima a porta do banheiro. Ele abriu a porta de uma vez e eu dei um pulo para trás.

- É um restaurante, mas não tão chique… Está perfeita. – Falou me olhando.

- Mais perfeito que você? Não. – Ele estava apenas com uma toalha amarrada na cintura, a pele úmida e brilhante, e cheirosa. O cabelo bagunçado, caindo aos poucos na testa. Os olhos sorridentes. Com o braço musculoso escorrendo água.

- Como minha namorada é safada me achando bonito pelado, nossa. O que será que aconteceu com ela? – Falou consigo mesmo, com a mão no queixo olhando para cima.

- Você aparece de toalha na minha frente, e ainda não sabe o porquê? Nossa, Steven Carson, que isso.

- Se eu te beijasse, o que aconteceria depois? – levantei as mãos e os ombros, indicando que não sabia – O cara que conserta a cama trabalha de noite? – Eu gargalhei.

- Santo Deus, o que será que aconteceu com você? Tão safado. – Ele sorriu.

- E cadeiras de rodas? Eles cedem à noite? – Perguntou parecendo sério enquanto pegava sua roupa na sua metade do guarda-roupa.

- E pra que uma cadeira de rodas? – Perguntei olhando para ele.

- Sabe, caso você não consiga andar. Mas se bem que, talvez não consiga sentar. – Os dois rimos.

- Steven, amor, você tá bêbado? Fumou alguma coisa pra estar tão assim? – Ele riu e me deu um selinho.

- Não, não fumei. Acho que você me drogou com você mesma. – Me puxou pela cintura. Nos beijamos. 
Mas ele precisava se trocar, eu não queria que tudo o que ele disse anteriormente acontecesse, mesmo. 

Então nos separamos, afinal, vamos sair para jantar!