- Que dia ela chega? – Perguntei me sentando.
- Quem vai chegar? – Steven apareceu na cozinha,
contaminando-a com seu perfume masculino e caro.
Sim, ele só tinha coisas caras
e de marca. Ser contador de uma empresa não é totalmente mau.
- Prima da Lea, amiga antiga minha. – Ele murmurou algo como
“ah, sim”.
- Chega na semana que vem. E ah, bom dia, Stev. – Lea sorriu
para ele.
- Bom dia, Lea. – Ele sorriu de volta.
- Vou tomar banho. Stev, faça alguma coisa para comermos?
- Claro, meu anjo. – Ele andou até a geladeira.
- Ai, meu anjo. –
Lea o imitou com uma voz fina e fanha nos fazendo rir muito. Fui para meu
quarto, e tudo o que ouvia eram gargalhadas vindas da cozinha.
Tomei meu banho tranquilamente. Ainda não eram nem nove
horas, e eu só entraria às duas. Às sextas, eu entro mais tarde. É por isso que
geralmente aceito compromissos na quinta à noite: porque eu posso dormir até o
meio-dia se quiser. Tentei tirar toda a preguiça do meu corpo – coisa realmente
difícil. Mas não queria tirar o cheiro da pele de Stev, aquele cheiro
amadeirado e gostoso que me recordava a noite passada. Mas foi inevitável. É
claro que depois eu iria o encher de abraços e carinhos, só para ficar com
aquele cheiro de novo.
Terminei o banho e caminhei até o closet, após sair do
banheiro. Coloquei um short e um top. Cheguei à cozinha e Steven fazia torradas na torradeira, a
mesa estava toda posta e arrumada, parecia um banquete. É isso o que meu
namorado faz, pensei feliz. Já minha amiga, que não faz nada, estava tomando
café. Aquele cheiro invadiu meu nariz, e eu inspirei.
- Que cheiro bom. – Sorri sem mostrar os dentes. Steven
abriu a boca, mas antes de falar, foi cortado por Lea.
- Ah, não. Nem venha me falar que é porque ela recém-chegou
e perfumou o ambiente com seu creme ou sei lá o que ela passa, já segurei muita
vela por hoje. – Eu ri e dei um tapa em sua cabeça. – Ai. – Reclamou e eu ri
novamente.
- Oi… Ai… Oi. – Um Stefan branco e pálido, parecendo
sedentário apareceu na porta da cozinha.
- Stefan, eu já tinha te avisado para não se levantar. –
Steven falou um pouco severamente, Stefan se sentou.
- Está com fome? Você precisa se alimentar. – Falei e Lea se
levantou e andou até ele.
- Não, não quero comer. Quero só deitar de novo, não sei nem
porque fui me levantar. – Ele falou com a mão na cabeça, possivelmente com dor.
- Gente, posso cuidar dele? Preciso de uma ocupação. – Lea
sorriu para ele, que deu um sorriso mísero e sem mostrar os dentes.
- Contanto que ele ainda esteja vivo no final do dia, tudo
bem. – Falei.
- Hoje vou sair à tarde, e alguém ia ter que ficar mesmo. –
Stev deu de ombros.
- Okay, então. Vou cuidar do Stef. – Ele assentiu parecendo…
Mais feliz? É, pois é. Ele estava
como um drogado, totalmente sem noção de tempo e espaço.
Ela o levou para dentro e só voltou para fazer uma sopa um
pouco mais tarde. Fui trabalhar e saí de casa às uma e meia. Steven saiu e não
avisou onde ia, mas passou a tarde fora. Pelo o que Lea me informava, Stefan
estava se recuperando bem e comeu um pouco de miojo que ela fez(acho que isso é
a coisa mais perto que temos de Lea na cozinha, além de ferver água).
Tive a reunião com o Little Mix, aquele grupo que eu dirigi
o clipe. Elas adoraram! Fiquei muito contente, pois cliente feliz é cliente feliz. Além de que, eu recebo
uma porcentagem dependendo da repercussão do clipe, e aquele lá parece que vai
ser ótimo para a carreira delas e, claro, a minha. Mark também estava muito
feliz, iria fazer o clipe da Rihanna. Nunca nem imaginei em chegar perto da
Rihanna, porque apesar de tudo, sou uma cidadã normal que não tem grandes
privilégios só por conhecer alguns artistas, e no geral, como são novatos, eles
nem se lembram da minha existência caso a fama venha a calhar.
Mas começar pelo Bruno Mars, já foi um bom começo. É claro
que aquela galinhagem toda dele tem que ser algo mais pessoal para ele fazer lá
fora, não no local de trabalho, mas isso não me envolve e a única coisa que
quero dele é o clipe de Gorilla. Que por sinal, também vai ser maravilhoso. Ele
falou na reunião de ontem que as fãs estão esperando por esse clipe, e depois
que foi divulgado que essa música teria mesmo
um clipe, elas enlouqueceram. Ele deve ter bastantes fãs, mas vai saber, não
acho que sejam tantas como o Justin Bieber ou alguém do gênero. Mas não sei
desse universo fanático, então isso não me importa.
- Você viu, vou ter uma reunião com a Rihanna! – Mark falou
me tirando dos devaneios sobre a fama alheia.
- Vi. Ah, se der, pega um autógrafo pra mim? Pego um do
Bruno pra você! – Falei e ele riu.
- Se der, é claro que eu pego, gatita. – ele me chamava de
“gatita”, ou “gata”, ou ainda “gatinha” e eu o mesmo, somos amigos sem
restrições. – E pode deixar que daquele lá eu não quero, credo, ele é tão
idiota. – Fez uma careta.
- Jura que achou isso? – Virei a cabeça.
- Completamente. – Ele revirou os olhos e continuou
digitando.
Lembrei-me da minha mãe e do meu pai, dos meus pais e do tempo que fazia que eu
não ligava para eles. Nenhum deles. Peguei meu celular e liguei para minha mãe,
pois agora meu pai deveria estar trabalhando ainda.
- Alô? – Ela falou ofegante.
- Mãe?
- Ah… Oi… bebê… - Ela não conseguia falar sem ofegar.
- Mãe, o que você tá fazendo? – Ela não deixava chamá-la de
senhora, diz que é pra velhinhas.
- Eu? Ai… tô numa… tirolesa.
- Mãe!?- Falei num
tom repreensivo.
- Filha!? – Ela me imitou. – Ui, cheguei. – Ouvi barulho de
alguma coisa se desprendendo.
- Mãe, o que você estava fazendo numa tirolesa? Em plena
sexta-feira? E onde achou uma tirolesa em Orlando? A Disney tá
disponibilizando? – Eu estava incrédula que minha mãe estava numa tirolesa
enquanto falava comigo, e ainda mais
por ela falar ao telefone numa tirolesa.
- Calma, menina, parece minha mãe. Olha, eu vim dar uma
volta no novo parque que tem aqui em Orlando e aproveitei a tirolesa, ué. – Essa é minha mãe. Eu ri.
- Okay, okay, mãe. Está tudo bem aí?
- Claro, meu amor. E aí? Como vão as coisas? Soube que seu
cunhado com cara de Tom Cruise está na sua casa, e doente. – Ela diz que Stefan
tem cara do Tom Cruise mais jovem, nunca achei, mas ela tem certeza.
- É, ele está doente, e na minha casa. Stev também está
aqui, veio passar o fim de semana.
- Use camisinha porque não quero ser vovó de netos com cara
de Tom Cruise, okay? – Eu gargalhei. Ela também acha Stev com cara de Tom
Cruise, só que “um pouco mais velho que o Tom Cruise materializado no Stefan”.
- Tá bom, senhora Sanders.
- Senhorita. Porque, convenhamos, você é mais senhora que eu
enfurnada no escritório enquanto curto uma tirolesa com um ventinho nas
extremidades. – Ela riu de si mesma, me fazendo rir.
- E a pequena, como vai? – Eu sempre chamei minha irmã de
pequena por ser baixinha. E ela sempre me respondeu com um “olha quem fala,
Luana”.
- Está bem. Terminou com aquele namorado, graças a Deus. Ele
era uma péssima influência pra ela, você sabe, mas não sei o que deu nela e num
dia chegou e me avisou que havia largado dele. Ele era bonitinho, uma pena ser
daquela laia. Se fosse mais velho, sabe… - Esse é mais um ponto da minha mãe,
os homens. Ela geralmente tem um novo namorado a cada de cinco a seis meses.
Mas foi bom saber que Louise largou daquele namorado dela – Louise é o nome da
minha irmã. – Pelo menos ela não me apareceu grávida aqui, acho que ainda estou
controlando essa parte dela.
Isso é a única coisa que a minha mãe não aceita de jeito
nenhum: gravidez. Depois que eu comecei a morar sozinha, tenho meu próprio
emprego, carro e independência financeira, ela não pega no meu pé. Mas no da
minha irmã, deve pegar do mesmo jeito que fez comigo ou pior. “Sem bebês, sem
invasão de privacidade.”
- Ah claro, que bom. Pede pra ela me ligar qualquer dia
desses…
- E o seu irmão? Quando viu ele?
- Jim? Ih, ele literalmente sumiu. Faz quase um mês que não
nos vemos, mas Stev disse que viu ele há alguns dias quando foi ao mercado na
semana passada. – Falei. Realmente fazia tempo que não via o Jimmy, ainda bem.
Ele é praticamente a ovelha negra da família, tem três namoradas, bebe demais,
fuma cigarros e sabe-se-mais-lá-o-que, vive por aí com sua caminhonete empacotada
de auto-falantes que fazem qualquer tímpano doer pelas ruas. E não se dá bem
com ninguém da família.
- Filha, a mamãe tem que ir. Vou dirigir agora, buscar a sua
irmã na casa de uma amiga e depois fazer mais um monte de coisas. Tchau, meu
amor.
- Tchau, mãe. Se cuida. – Me despedi.
- Quem tem que mandar se cuidar é a mãe, e não a filha. Mas,
devido aos fatores que eu tenho mais adrenalina todos os dias… Pode deixar que
eu vou me cuidar. – Eu ri. – Beijos, Luna.
- Beijo.
Desligamos.
Minha mãe sempre foi uma piada, sempre divertida, sempre
amiga. Ela quem sempre soube de tudo, do meu primeiro beijo, minha primeira
vez, meu primeiro namorado, tudo.
Sempre fomos muito amigas. E ela, sempre divertida, colorindo a vida com suas
loucuras. Ela é assim com todo mundo, com todos os filhos, mas a única que ela
não se dá tão bem é a Louise. Não sei o porquê, as duas não são tão uma com a
outra. Só apenas fazem o necessário.
Olhei no relógio e eram quase cinco horas. Hora de ir.
Peguei minha bolsa e o celular, recoloquei meu casaco e lenço, dei tchau a
Mark, dei tchau a Lise (que por sinal, e porque eu esqueci de dizer, está
totalmente gamada no Bruno, me pergunta todos os dias quando será a próxima
reunião), e saí.
Abaixei a cabeça e
olhei meu celular, havia uma mensagem da Lea. Ouvi buzinas estridentes e olhei
para cima novamente. Steven estava ali no seu Pajero cor verde-musgo metalizado
(Lea costuma chamar de cor-de-merda brilhante, mas enfim). Caminhei a passos
largos até o carro e entrei. Ele trancou as portas e arrancou.
- Veio me buscar? Que amor. – Falei enquanto dava um beijo
em sua bochecha.
- É, vim te buscar. Comprei uma coisa pra você, e vamos sair
pra jantar hoje. – Disse sorrindo todo misterioso.
- Uma coisa? – Eu já estava curiosa.
- É, ué.
- Não vai me contar o quê?
- Hummmm… Não. – Eu dei um tapa em seu braço. – Ei! Ai! –
Deu risada.
- Você sabe que eu odeio surpresas, Stev. – Falei e cruzei
os braços. Ele alternava os olhares do trânsito para mim.
- Ah, meu amor. É por uma boa razão. Você vai adorar a
surpresa, meu anjo. – Disse sorrindo e olhou brevemente para mim com aqueles
olhos caramelados.
- Você me dá tantos apelidos, me chama de anjo e amor,
enquanto eu só chamo pelo seu nome. Parece tão não-amoroso da minha parte… -
Falei e ele riu.
- Imagina. Não me importo, gosto quando fala ‘Stev’ com esses dentes branquinhos e
lindos. Gosto ainda mais quando sorri pra mim e descruza os braços. – Eu sorri.
– Isso, minha linda, fique feliz. Hoje você vai ficar feliz, com o presente. –
Ele estava tão carinhoso… Mais que o normal, ainda. Nossa.
- Posso aumentar? – Perguntei com a mão no rádio.
- Claro. – Sorriu.
- E agora, fiquemos
com Bruno Mars interpretando a linda canção It Will Rain, já voltamos. – O homem de voz grossa e radialista disse e uma música lenta, muito lenta,
começou.
- Não é desse cara que você tá fazendo clipe? O famosinho? –
Stev perguntou enquanto virávamos a próxima curva.
- É, é sim. Mas essa música dele é antiga, acho que 2010 ou
2011, por aí. Vou fazer o clipe de uma música mais atual, do novo CD. É uma das
músicas mais pecaminosas que eu conheço, sabe. – Ele riu, eu também.
- Jura? O carinha da granada fazendo músicas desse tipo? –
Eu ri com ele falando “o carinha da granada”, além de que sua cara estava muito
engraçada.
- Pois é. – Depois ficamos em silêncio o resto do caminho. A
música do Bruno estava no fim, mas mesmo assim era linda. Depois tocou músicas
de outros cantores e cantoras pop. Encostei para trás no banco, até me cansar.
É meia-hora do trabalho pra casa, e agora que posso descansar um pouco, vamos
lá…
- Dorminhoca, chegamos. – Acordei. Cochilei alguns minutos,
eu acho. Stev olhava para mim e me ajudou a me recompor depois. Quando saí, meu
cabelo voou para o meu rosto.
Fui para dentro enquanto Steven estacionava o carro. O
elevador estava totalmente vazio. Era triste, mas a única coisa que eu queria
fazer nessa sexta-feira é dormir e dormir. Debaixo das cobertas, talvez
assistindo a um filme. Mas definitivamente não queria sair.
Entrei e a casa estava silenciosa. Totalmente. Caminhei
pelos cômodos e não ouvi nada, mas a porta do quarto de hóspedes, que agora é
de Stefan, estava fechada. Bati nela com os nós dos dedos.
- Estão todos de roupa aí? – Falei alto, mas ninguém
respondeu.
Eu pensei: Ai meu
Deus.
Mas quando eu entrei, a surpresa foi maior. Stefan estava
dormindo abraçado à Lea, como se ela fosse sua boneca de pano e ele uma criança
que está aprendendo a dormir na própria cama sem os pais. Ela também dormia
tranquilamente, parecendo aconchegada ali. Meu Deus amado, como isso foi
acontecer?, pensei.
Deixei-os dormindo ali. Fui para meu quarto, para meu
banheiro mais precisamente. Se meu namorado queria sair, e ele não estava
frequentemente aqui, então é melhor que eu me mexa pra criar coragem e sair com
ele. Tomei meu banho, afinal. Eu ainda tinha vontade de dormir quando saí, mas
tive que me segurar para não saltar na cama, e fui me trocar.
Coloquei um vestido de noite, não tão chique, não tão
simples. Sequei o cabelo e deixei-o solto mesmo, o tempo chuvoso o deixava num
ondulado quase cacheado. Steven passou por mim, me deu um beijo, e foi para o
banheiro. Enquanto ele se banhava, procurei algum sapato adequado.
- Vamos a um restaurante chique ou algum bar extrovertido? –
Gritei próxima a porta do banheiro. Ele abriu a porta de uma vez e eu dei um
pulo para trás.
- É um restaurante, mas não tão chique… Está perfeita. –
Falou me olhando.
- Mais perfeito que você? Não. – Ele estava apenas com uma
toalha amarrada na cintura, a pele úmida e brilhante, e cheirosa. O cabelo bagunçado, caindo aos poucos na testa. Os
olhos sorridentes. Com o braço musculoso escorrendo água.
- Como minha namorada é safada me achando bonito pelado,
nossa. O que será que aconteceu com ela? – Falou consigo mesmo, com a mão no
queixo olhando para cima.
- Você aparece de toalha na minha frente, e ainda não sabe o
porquê? Nossa, Steven Carson, que isso.
- Se eu te beijasse, o que aconteceria depois? – levantei as
mãos e os ombros, indicando que não sabia – O cara que conserta a cama trabalha
de noite? – Eu gargalhei.
- Santo Deus, o que será que aconteceu com você? Tão safado. – Ele sorriu.
- E cadeiras de rodas? Eles cedem à noite? – Perguntou parecendo
sério enquanto pegava sua roupa na sua metade do guarda-roupa.
- E pra que uma cadeira de rodas? – Perguntei olhando para
ele.
- Sabe, caso você não consiga andar. Mas se bem que, talvez
não consiga sentar. – Os dois rimos.
- Steven, amor, você tá bêbado? Fumou alguma coisa pra estar
tão assim? – Ele riu e me deu um selinho.
- Não, não fumei. Acho que você me drogou com você mesma. –
Me puxou pela cintura. Nos beijamos.
Mas ele precisava se trocar, eu não queria
que tudo o que ele disse anteriormente acontecesse, mesmo.
Então nos separamos,
afinal, vamos sair para jantar!